segunda-feira, julho 11, 2022

Manhã no rio

 


"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."


*Foto por mim em Ingá -  Paraíba.

domingo, junho 26, 2022

sexta-feira, junho 17, 2022

No aeroporto

 



No aeroporto o menino perguntou:
— E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.


Imagem: Fotografia tirada do meu livro "Exercícios de Ser Criança"

quinta-feira, maio 19, 2022

Pássaros

 

A maneira de dar canto às palavras o menino aprendeu com os passarinhos.



No gorjeio dos pássaros tem um perfume de sol?



Em: Cadernos de aprendiz

sexta-feira, abril 22, 2022

A gente passeava nas origens

 


A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens. Bernardo conversava pedrinhas
com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água
na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
Infantis gerava mais poesia do que obedecer
as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das
palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de
Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.

terça-feira, março 22, 2022

Dia internacional das florestas



As árvores velhas quase todas foram preparadas para o exílio das cigarras.
Salustiano, um índio guató, me ensinou isso.
E me ensinou mais: Que as cigarras do exílio são os únicos seres que sabem de cor quando a noite está coberta de abandono.
Acho que a gente deveria dar mais espaço para esse tipo de saber.
O saber que tem força de fontes.


(Em: Biografia do orvalho)



Os dias 21 e 22 de março marcam a sensibilização acerca dos recursos naturais. Nessas datas, criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), são celebradas o Dia Internacional das Florestas e da Árvore (21) e o Dia Mundial da Água (22).


Imagem: Por mim na Floresta Amazônica, Manaus - AM.

quinta-feira, março 17, 2022

Poemas concebidos sem pecado

 


Em entrevista a José Castello, Manoel de Barros falou sobre seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, em 1937.

JC - Como você publicou seu primeiro livro?


Manoel - A primeira edição de Poemas Concebidos sem Pecado foi rodada na prensa manual de um diplomata, o Henrique Rodrigues Vale. Foram só 20 ou 30 exemplares, dados de presente. Não guardei nenhum.

JC - Quando você o lê, hoje, o que acha?


Manoel - Acho que esse meu primeiro livro é meu melhor livro. Tudo o que escrevi depois vem dele. Ali, eu já tinha a noção do valor linguístico da poesia. Poesia não é para contar história, poesia é um fenômeno de linguagem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2022

Cássia Kis encena Manoel de Barros

 


A atriz Cássia Kis volta em cartaz com o espetáculo "Meu Quintal é Maior do que o Mundo", em temporada de 4 a 27 de março, com sessões de sexta a domingo, no Teatro Vivo.

O espetáculo é formado por textos do livro "Memórias Inventadas", primeiro livro de prosa de Manoel de Barros, publicado em 2005. Com uma linguagem coloquial e poética, Manoel de Barros escreveu sobre temas como o cotidiano e a natureza. 

Cássia estabelece cumplicidade com a plateia ao interpretar quatro diferentes personagens: um menino com 5 anos, um jovem de 15, um homem de 40 e um idoso de 85. 

Conhecedora da obra do poeta, Cássia Kis  é uma excelente leitora do escritor mato-grossense. Após descobrir sua poesia em 1980, estabeleceu uma relação não só com a obra do autor, mas com o próprio Manoel, com quem se correspondia e de quem se tornou amiga.
 

Serviço:

Meu Quintal é Maior do que o Mundo

Temporada: De 4 a 27 de março de 2022 – Sextas-feiras às 20h, sábados às 21h e domingos às 18h.

Ingressos: R$ 60,00 (inteira) R$ 30,00 (meia).

Duração: 70 minutos.

Classificação etária: Livre.

Gênero: Prosa Poética.

TEATRO VIVO – Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi

Bilheteria: Terça a quinta, das 14h às 20h; sexta a domingo, das 14h até o início do espetáculo. Capacidade: a ser definida, conforme protocolos estabelecidos no início do mês de março pela prefeitura da cidade de São Paulo. Informações: (11) 3279-1520. Vendas pelo site Ingresso Rápido.

Orientações do Teatro Vivo para meia entrada

NOVA REGRA da MEIA ENTRADA – Estudante, Senior, Professor, Aposentados e Deficientes mais acompanhantes e Pessoas de Baixa Renda.

Concedemos também para pagar meia à CLASSE ARTÍSTICA

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quinta-feira, fevereiro 10, 2022

A arte de infantilizar formigas

 


Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.

sexta-feira, janeiro 28, 2022

quinta-feira, janeiro 13, 2022

Manoel de Barros é vetado no Enem...


Poeta Manoel de Barros foi vetado do Enem por "contrariar" trecho da Bíblia 


Documentos sobre a elaboração da prova de 2019 mostram 66 questões excluídas 


Por Ângela Kempfer | 18/11/2021 


Após 2 anos, quem luta para enfrentar o Enem descobre que um dos conteúdos mais exigidos durante a preparação já foi boicotado da prova. Documentos divulgados agora mostram que em 2019 houve censura à poesia de Manoel de Barros no Exame Nacional do Ensino Médio. 

A questão surgiu de “O Livro das Ignorãças”. Contrariando a Bíblia, Manoel escreveu: “No descomeço era o verbo”, uma oposição a “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus (João 1:1-4)”. 

Na justificativa dos censores, usar tal verso “fere sentimento religioso e a liberdade de crença.” 

(...)

Para educadores, Manoel é um dos 15 escritores mais citados em provas do Enem e vestibulares por “desenvolver uma poética singular, marcada por narrativas alegóricas, que transparecem nas imagens construídas ao longo do texto... transitam entre o sonho e a racionalidade, características singulares que fizeram dele um dos maiores poetas brasileiros”.

(...)


Quem quiser passar pela página cheia de pop-ups:


CRÉDITO: CAMPO GRANDE NEWS

domingo, janeiro 09, 2022

A natureza e seus fragmentos

 


Na fonte da poesia de Manoel de Barros existe uma relação de promiscuidade com a natureza – tanto a das palavras quanto a das plantas e dos bichos (inclusive os humanos, sobretudo os rasteiros). 


No entanto, o mundo que lemos nos versos do poeta parece filtrado por um olhar infantil, desacostumado: brincando com os termos e as normas da língua, Manoel ia derrubando as paredes entre espécies, gêneros, famílias, reinos. “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, escreveu ele em O Livro das Ignorãças (1993). 

Como, então, um cientista lê os versos do autor? As diferentes formas de encarar a natureza – e de se encantar com ela – se excluem? 

Neste vídeo, a questão é pensada por quatro biólogos: Bruss Lima, que estuda as atividades cerebrais de primatas não humanos; Carlos Hotta, cujas pesquisas se concentram no relógio biológico das plantas; Hugo Aguilaniu, especialista em genética do envelhecimento e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira; e Nurit Bensusan, que atua no campo das políticas públicas para a conservação da biodiversidade e escreve livros dedicados à popularização das ciências. 


* Depoimentos gravados entre outubro e novembro de 2018, em São Paulo/SP e no Rio de Janeiro/RJ.

terça-feira, dezembro 21, 2021

Haicai 1

 



Matéria

O osso da ostra
A noite da ostra
Eis um material de poesia



Em Matéria de poesia (2001, pág. 51)

domingo, dezembro 19, 2021

19/12 - Nascimento de Manoel de Barros

Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto de alcançar o murmúrio
das águas nas folhas das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais ideias: terá chuvas, tardes, ventos, passarinhos…
Nos restos de comida onde as moscas governam ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na barriga do cavalo —
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga: Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de enxergar no olho de uma
garça os perfumes do sol.



Em “Retrato do artista quando coisa” (1998)

Imagem: Iluminura da filha do poeta, Martha Barros.


segunda-feira, dezembro 13, 2021

Martha Barros

 

Martha Barros, a filha de Manoel de Barros, conta como era a rotina do poeta, desde antes de casar.
Também lê alguns poemas.



segunda-feira, novembro 22, 2021

O menino que ganhou um rio


Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!


(Memórias inventadas para crianças)

* Imagem: Rio Mondego, Figueira da Foz, Portugal.

Em homenagem a minha amiga, a poeta Graça Pires, fã do Manoel de Barros, que faz aniversário hoje.

sábado, novembro 13, 2021

13 de novembro - aniversário de morte do poeta

 

“Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens”

*Quando Manoel de Barros recebeu a Revista Caros Amigos, em 2008, em sua casa.

quarta-feira, outubro 20, 2021

Dia do Poeta - O poeta dos rios e passarinhos

 


Quem anda no trilho é trem de ferro.
Sou água que corre entre pedras:
- liberdade caça jeito.
Procuro com meus rios os passarinhos
Eu falo desemendado.

terça-feira, outubro 12, 2021

Dia da criança

 


Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.
Imagem: Meu filho e seu amigo.

terça-feira, outubro 05, 2021

Os deslimites das palavras

 


Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.