quarta-feira, dezembro 19, 2012

96 anos do poeta


Ao completar 96 anos, Manoel de Barros prefere um aniversário sem convidados

Leia a reportagem neste link.

terça-feira, dezembro 18, 2012


Palavras

Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

Em: O fazedor de amanhecer

terça-feira, outubro 09, 2012


Van Gogh, The Starry Night

As coisas muito claras me noturnam.


[Em 'O Fazedor de Amanhecer', edição de 2009]

sábado, setembro 22, 2012

Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Com as palavras se podem multiplicar os silêncios. 


"O fazedor de amanhecer, 2001"

sábado, setembro 15, 2012

Imagem de Raquel Marques
Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas.

"O fazedor de amanhecer, 2001"

sexta-feira, julho 20, 2012

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está namorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.


[Ensaios Fotográficos]


* Fotografia de Jil Norberto

Espetáculo de Dança homenageia Manoel de Barros no Festival de Inverno de Bonito

Como já é tradição no Festival de Inverno de Bonito, a dança tem destaque nos palcos da cidade. Neste ano contará com a apresentação de companhias do Estado e de São Paulo. Um dos espetáculos homenageia o poeta Manoel de Barros. O Festival que acontece de 25 a 29 de julho é uma realização do governo do Estado de Mato Grosso do Sul por meio da Fundação de Cultura.

Leia a notícia aqui.

sábado, fevereiro 04, 2012

Tempo

Imagem de Susana Neto
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
[Memórias inventadas: a segunda infância ]