quinta-feira, novembro 13, 2014

Difícil fotografar o silêncio...



Difícil fotografar o silêncio.

Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


Manoel de Barros

Manoel de Barros foi fazer poesia com os Anjos


Poeta morreu hoje, 13/11/2014, aos 97 anos.Leia mais
aqui.

quarta-feira, novembro 12, 2014

Poeta Manoel de Barros tem piora no quadro clínico

O poeta Manoel de Barros, de 97 anos, segue internado em leito da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Proncor de Campo Grande e apresentou piora dos parâmetros clínicos, conforme boletim médico divulgado na manhã desta quarta-feira (12).
Leia mais aqui.

sexta-feira, outubro 17, 2014

Dia da Criança

Meu filho Gabriel
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos...


Manoel de Barros

domingo, outubro 12, 2014

Dia da Criança

Eu com 7 anos
O ideal seria uma menina boba: 
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono, 
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome - 
senão que um sorriso triste 
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto 
das crianças que não têm rumo...

Manoel de Barros

terça-feira, setembro 30, 2014

domingo, setembro 21, 2014

Dia da Árvore, A Manoel de Barros

Foto tirada por mim na rua do Catete, set 2014

Sabedoria vegetal

"Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal."
[Manoel de Barros]

Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule
que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.

Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal,                                             
começo de árvore em outra estação.

Solange Firmino.

sexta-feira, julho 04, 2014

Eu no Jardim Botânico - RJ
O ermo que tinha dentro do olho do menino era um defeito de nascença, como ter uma perna mais curta... 
(trecho de 'O fingidor', in Ensaios Fotográficos)

domingo, abril 27, 2014

Araras - foto tirada por mim




Araras - foto tirada por mim
Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.

domingo, março 02, 2014

Retrato do artista quando coisa

Foto tirada por mim na Igreja de Nossa Senhora da Guia - Pb

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc. Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

domingo, fevereiro 23, 2014



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.
3.1

Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.


[Os deslimites da palavra]

sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Pedras do Ingá - Campina Grande



XLV

Fui convidado pelas aves para ser árvore.
Eu sofro preferência para pedras.


(In: Concerto a céu aberto para solos de ave -
Caderno de Apontamentos)

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)