sábado, maio 14, 2016

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

sexta-feira, maio 13, 2016

Tratado geral das grandezas do ínfimo


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Rio

''Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa, Ele me rã, Ele me árvore.''

(Manoel de Barros)
Vianópolis - Goiás, Foto tirada por mim.

A palavra...

Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta, a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.(Manoel de Barros)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dia do Poeta - 20 de outubro

Um dos versos de que mais gosto desse poeta maravilhoso:

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."

terça-feira, outubro 13, 2015

“O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!”


[Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007]

sexta-feira, outubro 09, 2015

Peça teatral "O delírio do verbo"

Estreou em outubro no Rio de Janeiro, no Teatro Cândido Mendes, e fica em cartaz até dezembro.


Link no youtube com trechos da peça: https://www.youtube.com/watch?t=48&v=6evkyDUqEsI

Há uma página no facebook para acompanhar o trabalho do ator Jonas Bloch com a peça, baseada na obra de Manoel de Barros:
 https://www.facebook.com/odeliriodoverbo


quarta-feira, outubro 07, 2015

Dia da Criança - Manoel por Manoel


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

(Memórias inventadas)