quarta-feira, abril 11, 2018

Araquãnis - a poesia de Manoel de Barros no teatro

Araquãnis, grupo de pesquisa interartes, está com uma montagem sobre a obra do Manoel de Barros. As apresentações serão nos dias 5 e 6 de maio. 

Sábado às 19h e domingo às 18h. 
Local: Rinha das Artes - Macaé - RJ.

* Quem quiser ainda pode colaborar com a campanha de financiamento coletivo: 



quarta-feira, março 28, 2018

"Sombra Boa" - CD Crianceiras


Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.



- em Poemas Rupestres.


*A canção integra o CD Crianceiras, composto só de poemas de Manoel de Barros transformados em música.
O trabalho é de autoria do cantor, compositor e instrumentista Márcio De Camillo. "Sombra Boa" é interpretado por ele e a filha.



quarta-feira, março 14, 2018

Dia da Poesia

Flor do meu jardim em 14.03.18

SINGULAR, TÃO SINGULAR


Ó passar-se invisível pela alma da alameda de casas 
espaçosas 
Imaginando a feição ideal dentro de cada uma!

Ir recebendo um pouco de poesia no peito 
Sem lembranças do mundo, sem começo… 
Chegar ao fim sem saber que passou 
Tranquilo como as casas, 
Cheio de aroma como os jardins
Desaparecer. 
Não contar nada a ninguém. 
Não tentar um poema. 
Nem olhar o nome na placa. 
Esquecer. 
Invisível, deixar apenas que a emoção perdure
Fique na nossa vida fresca e incompreensível 
Um mistério suave alisando para sempre o coração.

Singular, tão singular…



*No livro "Face imóvel" (1942), Poesia completa: Manoel de Barros. São Paulo: Editora Leya, 2010.

domingo, março 11, 2018

A língua das coisas (Curta-metragem)

cena do curta
Curta-metragem selecionado pelo programa Curta Criança do MINC e TV Brasil, livremente inspirado na obra de Manoel de Barros, exibido e premiado em festivais de cinema no Brasil e no exterior. 

Sinopse: em um sítio vivem o menino Lucas e seu avô. O avô só sabe a língua do rio, dos bichos e das plantas. Lucas está cansado da rotina de pescar e das histórias inventadas pelo avô, que diz pescá-las no rio. Um dia, a mãe de Lucas vem buscá-lo para morar na cidade. Na escola, a nova língua não entra na sua cabeça. Ele começa a escrever uma língua inventada, só dele. A mãe recebe a notícia da morte do avô. De volta ao sítio, Lucas corre na ilusão daquela notícia ser uma história inventada. Mas não é. Desolado na margem do rio, dezenas de palavras são trazidas pela correnteza.

https://vimeo.com/90180624



sábado, março 03, 2018

Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho

Foto tirada por mim em 02-01-2018 na Glória-RJ


1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3


Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo aguenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7
Uma chuva é íntima


Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11
Que a palavra parede não seja símbolo


de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12
Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13
Airão Velho

Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos.



in: "O Guardador de Águas", Ed. Civilização Brasileira.

Retrato do artista quando coisa

* Foto tirada por mim na Igreja de Nossa Senhora da Guia, em Lucena, PB. O início da construção se deu no final do século XVI.




A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc. 
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

[Manoel de Barros]

terça-feira, fevereiro 20, 2018

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Meu Quintal é Maior do Que o Mundo

Homenagem ao Poeta Manoel de Barros 
Samba Enredo 2017 - Campeã Série A

G.R.E.S. Império Serrano (Rio de Janeiro)

Abre a janela, vem ver ôô
Poesia brotar no quintal O carnaval florescer Menino Bernardo em meu ser Reinvento o meu Pantanal O som do apito a tocar anuncia a cor Um canto verde do índio enfeitiçou Guardando o segredo das águas Regando o mar de Xarayés O eldorado reina aos meus pés O som que salta do brejo Empresto a viola A paz do meu lugar "aflora" É feito um Império em procissão Enfeito meu coração, morada do meu viver Tem casa que anda por esse chão Bandarra é meu coração que voa no entardecer Menino do mato, o nosso verde fez o céu emocionar E o branco então floriu meu chão Atento a um feroz olhar Luar que me traz a lembrança Nossa Senhora é fé, esperança De um pantaneiro a lutar Reizinho de tantas vitórias Cantando eu declamo esse amor por você Eu sou Império Abra o meu livro pois tu sabes ler A minha história já fala por mim Sou resistência, orgulho sem fim Tem poesia no ar, você já sabe quem sou Pelo toque do agogô


Assista ao desfile completo da Escola.