domingo, março 02, 2014

Foto tirada por mim na Igreja de Nossa Senhora da Guia - Pb

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc. Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

domingo, fevereiro 23, 2014



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.
3.1

Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.


[Os deslimites da palavra]

sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Pedras do Ingá - Campina Grande



XLV

Fui convidado pelas aves para ser árvore.
Eu sofro preferência para pedras.


(In: Concerto a céu aberto para solos de ave -
Caderno de Apontamentos)

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)

sexta-feira, setembro 13, 2013

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982)