sexta-feira, outubro 30, 2020

O fotógrafo / vídeo

 


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.



(Em Ensaios fotográficos) 


* Observação: de tanto copiar na internet poemas "errados", resolvi copiar dos meus livros. Esse foi copiado da página 379, Poesia Completa da Editora Leya, 2010. 

Assista abaixo o poema "O FOTÓGRAFO", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra. Quem quiser assistir no YouTube, é só clicar em YouTube abaixo do vídeo que abrirá o link em uma nova janela:



quarta-feira, outubro 14, 2020

Dia da criança - Agora eu invento brinquedos com palavras


Minha infância passei em uma fazenda no Pantanal. Nesse lugar o tempo era parado. Ou passava devagar que lesma. Às vezes a lesma chegava primeiro que o fim do dia. Eu não era solitário. Tinha três irmãos. A gente fabricava os nossos brinquedos. No lugar só tinha o nosso rancho e animais de sela. O que sufocava não era a falta de espaço. A gente só via as distâncias. A gente inventava brinquedos o tempo todo. Agora eu invento brinquedos com palavras. Um vício que eu trouxe de lá. – Manoel de Barros

segunda-feira, setembro 28, 2020

O lagarto espichado na areia

 


Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.
Ele falou de sério.
Ficamos instruídos.


(em Poemas Rupestres)

terça-feira, setembro 22, 2020

Hoje começa a primavera!


 

"Na verdade na verdade

os passarinhos que botavam primavera nas palavras".

(trecho de 'Canção do ver', em Poemas Rupestres)

segunda-feira, setembro 21, 2020

sábado, setembro 12, 2020

Um banho de infância

"Manual de Barro" faz apresentação do livro "Concerto a céu aberto para solos de aves" para Manoel de Barros.

E o poeta aprova: "banho de infância em mim" é o que diz ao final da apresentação.


segunda-feira, agosto 31, 2020

Maria Bethânia lê Manoel de Barros

 


A cantora Maria Bethânia lê o poema Ruína, do poeta Manoel de Barros.  

Postagem no YouTube de Junior Zenith.

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

Manoel de Barros

sexta-feira, agosto 14, 2020

O ser letral

Eu sou dois seres.

O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
E fruto de uma natureza que pensa por imagens,
como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

terça-feira, agosto 04, 2020

Sobre nada e poesia

Sempre que desejo contar alguma coisa, 
não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, 
faço poesia.

sexta-feira, julho 24, 2020

Ninguém é pai de um poema sem morrer

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.

domingo, julho 12, 2020

Poesia não é demonstrativa

"Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras. 
Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto. 
Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. 
Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo. 
Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. 
Poesia não presta para demonstrar nada. 
Ela só presta para dar néctar." 



Manoel de Barros em entrevista a Douglas Diegues.

terça-feira, junho 30, 2020

Desvio

 “No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.”

(Em carta a José Castello)

quarta-feira, junho 17, 2020

O recolhimento da concha

Não sou biografável. Ou talvez seja. Em três linhas.
1. Nasci na beira do rio Corumbá.
2. Passei a vida fazendo coisas inúteis.
3. Aguardo um recolhimento de conchas. (E que seja sem dor, em algum banco de praça, espantando da casa as moscas mais brilhantes.)

quinta-feira, junho 04, 2020

Solitário



Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.

Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas

Que me faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas…
No entanto o homem passava ladeado de muros! 
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando alguma dádiva!

Seu corpo fazia uma curva diante das flores.


 

*No livro "Face imóvel" 

sábado, maio 30, 2020

Explicando o gosto mais literário que revolucionário

Fica claro que o engajamento político do poeta, nem no auge de sua juventude, se sobrepõe à literatura. 
Registra Müller (2010):

Nos fins dos anos 1940, no Rio, pensei de salvar o mundo da miséria e da opressão. Todos os rapazes da minha faculdade estavam dispostos a dar a vida para salvar o mundo. Eu tinha lido em Fernando Pessoa: “Amanhã é dos loucos de hoje”. Era preciso ser louco. Era preciso ser amanhã. Entrei para a juventude Comunista. Comecei a ter chefes e chefetes. Recebia ordem que ninguém sabia de onde vinham. Ordem de pichar estátuas, de soltar panfletos. Tarefas. Tarefas. Me mandaram ler Marx, Engels, Lenine. Não passava das 10 primeiras páginas. Descobri que o meu forte era a palavra. Me ajeitei com Maiakóvski. Meu gosto era mais literário que revolucionário. Acho que iria fugir se me mandassem brigar. Eu seria se tanto uma barata: se me pisassem a carcaça eu sairia pelos cantos arrastando substâncias [...] 
(MÜLLER, 2010, p. 101).

domingo, maio 10, 2020

No aeroporto...

No aeroporto o menino perguntou:
— E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:

— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.

Manoel de Barros, in Exercícios de Ser Criança.


* Hoje é dia das mães.

domingo, abril 05, 2020

Mansidão (Obs.: A população mundial passando pelo isolamento social)

Janela do meu quarto em abril


As casas dormiam na hora surda do meio-dia. 
O corpo do homem penetrou sob árvores 
Na longa quietude estendida da rua. 
Tudo permaneceu sem um grito, 
Um pedido de socorro sequer. 
Ninguém soube se o coração vibrou. 
Que sonho o acalenta ninguém adivinhou. 
Ninguém sabe nada. 
Não traz um lamento, 
Nem marca dos pés no chão vai ficar. 
Tão triste é a vida sem marca dos pés! 
Tudo permaneceu sem um grito, 
Um pedido de socorro sequer. 
Ele passou sem calúnias 
E é possível que sem corpos que o chamassem. 
Ninguém soube se o coração vibrou 
Porque tudo permaneceu sem fundo suspiro 
No estranho momento das coisas paradas.

- Manoel de Barros, no livro "Face imóvel" (1942).
 

domingo, março 08, 2020

Quem anda no trilho...

“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”

– Manoel de Barros, em “Matéria de Poesia”

sábado, fevereiro 08, 2020

Invencionática


Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

terça-feira, janeiro 21, 2020

Desejar ser



"O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos veem com amor o que não é, tem ser"


 (Padre Antônio Vieira)

1.

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

2.

Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só para poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc ploc toc ploc. Ele era um destaque.
Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.
Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu. (...)

* Imagem: Walking Man II, estátua de bronze de Alberto Giacometti, 1960.

 

terça-feira, janeiro 07, 2020

Árvore

Foto tirada por mim no jardim do Museu da República - RJ
O mundo não foi
feito em alfabeto.
Senão que primeiro
em água e luz.
Depois árvore.

Manoel de Barros

terça-feira, dezembro 03, 2019

"Meus poemas sofrem de mim"

(...)


Estado - Poemas são assim tão perigosos? Os seus costumam ser adotados nas provas de vestibular. Você não gosta. Por quê?
Manoel - Faço uma poesia difícil. Depois, cair no mundo das imagens não é para qualquer um. Ainda mais para adolescentes. Adolescentes querem as coisas retas, senão não aceitam. E minha poesia é torta.

Estado - Eles exigem, no mínimo, professores muito preparados.
Manoel - Mas nem os professores me digerem. Há pouco tempo, chegou aqui em casa uma das coordenadoras do vestibular em Mato Grosso. Ela me disse: "Eu não entendo nada de seus livros. Se me permitir dizer a verdade, eu vou dizer: seus livros são uma m...!"

Estado - E como você reagiu?
Manoel - Eu lhe disse: "Olhe, minha querida, se meus poemas são difíceis, a culpa não é minha. Juro que não tenho culpa. Meus poemas sofrem de mim."

Estado - E então?
Manoel - Ela estava desesperada. E me disse: "Pois é, mas eu não entendo nada. Como é que vou preparar meus alunos para as provas?" Eu respondi: "Olhe, eu também não sei o que lhe dizer. Meus livros não são para vestibular." Poesia exige sensibilidade. Se você não tem sensibilidade, preparo algum adianta.


(...)

Entrevista a José Castello para o Estado.

sexta-feira, novembro 22, 2019

Retrato do artista quando coisa (Para Graça Pires)

Foto tirada por mim no Museu da República. Árvore onde
meu filho brincava que foi cortada. Tem um passarinho
no primeiro tronco à esquerda.
Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis.
Tem por lá um menino a brincar no terreiro: entre conchas, osso de arara, pedaços de pote, sabugos, asas de caçarolas etc. 
E tem um carrinho de bruços no meio do terreiro. 
O menino cangava dois sapos e os botava a puxar o carrinho. 
Faz de conta que ele carregava areia e pedras no seu caminhão. 
O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo umas latas tristes. 
Era sempre um barbante sujo. 
Eram sempre umas latas tristes. 
O menino é hoje um homem douto que trata com física quântica. 
Mas tem nostalgia das latas. 
Tem saudades de puxar por um barbante sujo umas latas tristes.
Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem douto encomendou uma árvore torta – 
Para caber nos seus passarinhos. 

De tarde os passarinhos fazem árvore nele. 



Em:  Em Retrato Do Artista Quando Coisa


* Ofereço essa postagem a minha amiga Graça Pires, que faz aniversário hoje.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Mês da Criança


Eu com 5 e 7 anos
"Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela..."

[Manoel de Barros]

sábado, setembro 21, 2019

Mundo pequeno

Mundo Pequeno

in: "O Livro das Ignorãças"
Foto tirada por mim em frente à casa da minha avó.

I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


* Hoje, 21 de setembro, é dia da árvore! Por isso escolhi esse poema.

segunda-feira, agosto 26, 2019

Beethoven e o erro perfeito

"Beethoven é um erro perfeito." Logo, o erro é a perfeição. O artista é um doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal qualidade literária é minha visão torta do mundo - logo, minha principal qualidade literária é minha doença. Escrever que "Beethoven é um erro perfeito" é uma ideia torta, não é? 

Escrever que "o silêncio do mar é azul" também é uma ideia torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio linguístico e é ele que forma seu estilo.


(Conversa com José Castello)

sábado, agosto 10, 2019

O canto dos pássaros e a despalavra


Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico
dos pássaros. 
O canto é ágrafo, não admite escrita. 
Só depois dele é que as
palavras aparecem. 
Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as
palavras humanas. 
O canto dos pássaros é uma "despalavra".

(Em entrevista a José Castello)

sábado, junho 15, 2019

Os bens do poeta

"Os bens do poeta: um fazedor de inutensílios, um 
travador de amanhecer, uma teologia do traste, uma 
folha de assobiar, um alicate cremoso, uma escória 
de brilhantes, um parafuso de veludo e um lado 
primaveril"


- Manoel de Barros, excerto "XII - Sábia com trevas", no livro "Arranjos para assobio" (1980)

sábado, junho 01, 2019

Pregos

Um homem catava pregos no chão,
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônio inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

sexta-feira, março 15, 2019

Manoel de Barros e os entulhos necessários ao poema

Por Fábio Pessanha, na Revista Vício Velho, em 13/03/2019

Trechos:


“escombros” é uma imagem forte na poética de manoel de barros. talvez seja toda uma poética dotada de restos e do que não tem serventia, do que na prática se pratica pela inutilidade – o inutensílio que é mais que objeto, que é também um lugar.

(...)

o poema que traz a gente a essa prosa é um exercício de recomeços. diria até que seria uns pertences desconexos que se juntam ao que desde sempre fora um núcleo repartido, mas ao mesmo tempo vigente na locução de seus conflitos.

(...)

XI.
coisinhas: osso de borboleta pedras
com que as lavadeiras usam o rio
pessoa adaptada à fome e o mar
encostado em seus andrajos como um tordo!
o hino da borra escova
sem motor ACEITA-SE ENTULHO PARA O POEMA
ferrugem de sol nas crianças raízes
de escória na boca do poeta beira de rio
que é uma coisa muito passarinhal! ruas
entortadas de vaga-lumes
traste de treze abas e seus favos empedrados
de madeira sujeito com ar de escolhos inseto
globoso de agosto árvore brotada
sobre uma boca em ruínas
retrato de sambixuga pomba estabelecida
no galho de uma estrela! riacho com osso de fora
coberto de aves pinicando
suas tripas e embostando de orvalho
suas pedras indivíduo que pratica nuvens ACEITA-SE
ENTULHO PARA O POEMA moço que tinha
seu lado principal caindo água e o outro lado
mais pequeno tocando larvas!
rã de luaçal
(...)
entulha-se tudo que pode, inclusive o que a princípio não poderia. mas aqui no poema, não há censura que o impeça de ruir contiguidades esperadas pelo comum das vozes normalmente bem aceitas. embora estejamos aqui na parte XI, o poema se compõe de XV partes, e nelas é possível se perceber a potência do inútil ou ainda da palavra como repositório de existências...
(...)
Leia o texto integral aqui na Revista Vício Velho.

sábado, fevereiro 16, 2019

Rascunhos de Manoel de Barros são expostos em SP de fevereiro até abril de 2019

Manoel de Barros em NYC, 1947

Materiais foram reunidos e organizados pela filha e artista plástica Martha de Barros

A 43ª Ocupação Itaú Cultural em homenagem ao poeta, em São Paulo, foi aberta no dia 13/02/19, e reúne rascunhos, cartas, fotos e outros materiais inéditos do autor cuiabano que escolheu Campo Grande como morada.

Desde a morte do poeta, em 2014, a filha do poeta, a artista plástica Martha de Barros, diz estar organizando materiais inéditos deixados por ele no escritório da casa da família, onde ainda hoje mora a esposa, Dona Estela.

Martha passou um ano e meio reunindo e organizando o arquivo do pai, que continha manuscritos em cadernos de vários formatos, cartas, fotos, além do material literário.
Colecionar caderninhos repletos de observações era uma das manias de Manoel. Por isso, uma das atividades da mostra será oficina de encadernação. 

Nos dias 23 e 24 de fevereiro, último fim de semana do mês, os visitantes vão criar seus próprios caderninhos de rascunho.

Alguns dos itens mais especiais que agora serão vistos na exposição são as cartas trocadas entre o autor e personalidades como o desenhista Millôr Fernandes, os escritores Mário de Andrade e Carlos Drummond e o chargista Henfil.

O Itaú Cultural fica na Avenida Paulista, 149, em São Paulo (SP). A visitação é gratuita e ficará aberta até 7 de abril, de terça a sexta, das 9h às 20h. Aos sábado, domingos e feriados, o funcionamento é de 11h as 20h.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

AUTORRETRATO

* Hoje é aniversário de nascimento de Manoel de Barros!!!
Imagem: Projetos Mudas de Igreja

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
Não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios, 
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!

terça-feira, dezembro 11, 2018

O palhaço

Gostava só de lixeiros crianças e árvores
Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja.
Vinha pingando oceano!
Todo estragado de azul.

[Manoel de Barros]

in: Matéria de Poesia



* Foto: Eu, de palhaça Borboleta


* Dia 10/12, ontem, foi dia do palhaço.

terça-feira, novembro 13, 2018

Jornalista relembra última conversa com o poeta


Jornalista relembra última conversa com o poeta

E hoje, no aniversário de falecimento do poeta Manoel de
Barros(13/11/2014), trago um texto em que um jornalista relembra
última conversa com o poeta.


"Muitas vezes vivemos para perder, principalmente na velhice. O tempo
não morre. O tempo nasce. Não devemos ter esse sentimento melancólico
pelo tempo que passa. Devemos estar abertos para o novo, para o
futuro, para o tempo que vem.”

(Manoel de Barros)

Link para o texto.

terça-feira, novembro 06, 2018

Eu fui pular no Rio!!!

🎭

Tão corrida está a vida que não coloquei aqui que fui ver a peça do Araquãnis "Vem pular no rio", no Teatro CACILDA BECKER - RJ, nos dias 11 e 12 de outubro.


E chorei bastante ao lembrar da poesia do Manoel de Barros, que a Tainá Pimenta e o Alan Hauer trazem ao público lindamente. 

"A mãe falou:

Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda."

Trecho de 'O menino que carregava água na peneira'
[Manoel de Barros]






sexta-feira, outubro 12, 2018

Dia da Criança


"Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas.
Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. 
Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela..." 

[Manoel de Barros]

sábado, agosto 25, 2018

🎭 CONVITE 🎭

Pessoal,
De 11 a 14 de outubro, no Teatro Cacilda Becker, no Catete, o grupo Araquãnis espera todo mundo que curte teatro, poesia, música e Manoel de Barros!

VEM PULAR NO RIO COM ELES!
🎭
Uma realização Funarte/Minc.

sábado, julho 28, 2018

"Agramática"

Assistam "Agramática", Manoel de Barros por ele mesmo:



"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas

leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
  o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
        pode muito que você carregue para o resto da
        vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.



 “O Livro das Ignorãças”