terça-feira, outubro 09, 2012


Van Gogh, The Starry Night

As coisas muito claras me noturnam.


[Em 'O Fazedor de Amanhecer', edição de 2009]

sábado, setembro 22, 2012

Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Com as palavras se podem multiplicar os silêncios. 


"O fazedor de amanhecer, 2001"

sábado, setembro 15, 2012

Imagem de Raquel Marques
Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas.

"O fazedor de amanhecer, 2001"

sexta-feira, julho 20, 2012

Espetáculo de Dança homenageia Manoel de Barros no Festival de Inverno de Bonito

Como já é tradição no Festival de Inverno de Bonito, a dança tem destaque nos palcos da cidade. Neste ano contará com a apresentação de companhias do Estado e de São Paulo. Um dos espetáculos homenageia o poeta Manoel de Barros. O Festival que acontece de 25 a 29 de julho é uma realização do governo do Estado de Mato Grosso do Sul por meio da Fundação de Cultura.

Leia a notícia aqui.

sábado, fevereiro 04, 2012

Tempo

Imagem de Susana Neto
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
[Memórias inventadas: a segunda infância ]


sexta-feira, outubro 28, 2011

Uma Didática da Invenção

Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho X)

Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho XI)



Imagem: INGÁ, Pb. Fotografia tirada por mim em 2010.

sábado, outubro 30, 2010

Manoel de Barros vence o 6º prêmio BRAVO! de Cultura


Em cerimônia realizada na Sala São Paulo em 25/10/2010, o escritor e poeta Manoel de Barros foi contemplado com o Prêmio BRAVO! Bradesco Prime de Cultura.

“Fiquei satisfeito, não poderia querer coisa melhor”, afirmou Barros em mensagem gravada em vídeo. Em seu discurso de agradecimento, o poeta também se referiu à dimensão artística que definitivamente atingiu na cultura brasileira: “Virei um mito para quem gosta da minha poesia”.

Autor de mais de 30 livros e vencedor do prêmio Jabuti por duas vezes, Manoel de Barros lançou em 2010 sua obra poética completa, além de ganhar uma “desbiografia” autorizada no documentário "Só Dez Por Cento é Mentira", do diretor Pedro Cezar.

Nascido em 1916, cronologicamente Manoel de Barros pertence à Geração de 45, mas formalmente é associado ao Modernismo, com maior aproximação das vanguardas europeias do início do século XX e da Antropofagia de Oswald de Andrade.

De acordo com o site da Fundação Manoel de Barros, um instituto de apoio à cultura e de assistência social batizado em sua homenagem, Barros adota uma temática regionalista e inspirada na natureza, “indo além do valor documental para fixar-se no mundo mágico das coisas banais retiradas do cotidiano”.

(...)

Além do artista do ano, outras 11 categorias foram premiadas na festa, que também incluiu uma recriação de sambas de Noel Rosa, artista que completaria 100 anos em 2010.



sábado, julho 03, 2010

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

[Manoel de Barros]

*Obs.: Do livro: "Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros".
Imagem: Sócrates.

sexta-feira, maio 14, 2010

Manoel de Barros homenageado em Santa Teresa


Nos dias 15 e 16 de maio Alinhar ao centrode 2010 haverá no Rio de Janeiro a Feira Literária de Santa Teresa e os homenageados são Manoel de Barros e Noel Rosa.
O poeta Manoel de Barros respondeu à carta enviada pelo CEAT: "Estou tentando escrever o Livro do Chão. Lá o vento é vertical".
Veja nesse link.

Visite a página da Feira para mais informações:
http://www.flist.org.br


segunda-feira, janeiro 04, 2010

"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."
Cinco palavras bonitas sem as quais escrever não teria tanta graça:
"chão, água, caracol, árvore e garça."
Cinco razões pelas quais vale a pena ser poeta:
"Penso que não tive escolha 
Fui escolhido e gostei da escolha 
Faço o que sonho 
Faço o que gosto 
Sou um pouco irresponsável com os passarinhos, isto seja: 
Sou livre 
Amo a palavra" 

  Imagem: Markus Lüske

segunda-feira, agosto 25, 2008

O primeiro professor de agramática




VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios , não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

[O livro das ignorãnças - 1993]

Uma didádita da invenção


X

Não tem altura o silêncio das pedras.

domingo, agosto 24, 2008

Uma didática da invenção


VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.


Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.


Imagem: Nuno Ferreira

De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.




Imagem: António Durães

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

o menino fazia prodígos.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.



* imagem: Rúbem de Almeida

sábado, fevereiro 02, 2008

Uma didática da invenção


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, Onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Imagem: Rui Fajardo

A arte de infantilizar formigas



Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.