sexta-feira, agosto 26, 2016

Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que 
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui 
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso 
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado 
e disse que eu tivera um vareio da imaginação. 
Mas que esses vareios acabariam com os estudos. 
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li 
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. 
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande 
saber. Achei que os eruditos nas suas altas 
abstrações se esqueciam das coisas simples da 
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase: 
A imaginação é mais importante do que o saber. 
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei 
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu 
olho começou a ver de novo as pobres coisas do 
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam 
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no 
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas 
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania 
nem pra ser um bentevi.




Em "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.

Dos passarinhos...


segunda-feira, julho 18, 2016

Prefácio



Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

quarta-feira, junho 22, 2016

O livro sobre nada



É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

quinta-feira, junho 09, 2016

O fazedor de amanhecer


Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

sábado, maio 14, 2016

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

sexta-feira, maio 13, 2016

Tratado geral das grandezas do ínfimo


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Rio

''Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa, Ele me rã, Ele me árvore.''

(Manoel de Barros)
Vianópolis - Goiás, Foto tirada por mim.

A palavra...

Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta, a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.(Manoel de Barros)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dia do Poeta - 20 de outubro

Um dos versos de que mais gosto desse poeta maravilhoso:

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."

terça-feira, outubro 13, 2015

“O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!”


[Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007]

sexta-feira, outubro 09, 2015

Peça teatral "O delírio do verbo"

Estreou em outubro no Rio de Janeiro, no Teatro Cândido Mendes, e fica em cartaz até dezembro.


Link no youtube com trechos da peça: https://www.youtube.com/watch?t=48&v=6evkyDUqEsI

Há uma página no facebook para acompanhar o trabalho do ator Jonas Bloch com a peça, baseada na obra de Manoel de Barros:
 https://www.facebook.com/odeliriodoverbo


quarta-feira, outubro 07, 2015

Dia da Criança - Manoel por Manoel


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

(Manoel de Barros - Memórias inventadas)

domingo, setembro 27, 2015

Foto tirada pelo cantor Leoni

XIX
De tarde o horizonte amolece meu olho.
Põe breu.
De manhã faço abluções com orvalho.

[Manoel de Barros, Concerto a céu aberto para solos de aves]

sexta-feira, setembro 04, 2015

Ilha de Paquetá - foto tirada por mim em julho de 2015












"Águas são fêmeas de chão. 
Ambas, água e chão 
Merecem o gosto
De se entrarem."

[Manoel de Barros]


"Manoel de Barros: O Demiurgo das Terras Encharcadas -  Educação pela vivência do chão", Maria Cristina de Aguiar Campos, Faculdade de Educação da USP. Página 223.

quarta-feira, novembro 12, 2014

Poeta Manoel de Barros tem piora no quadro clínico

O poeta Manoel de Barros, de 97 anos, segue internado em leito da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Proncor de Campo Grande e apresentou piora dos parâmetros clínicos, conforme boletim médico divulgado na manhã desta quarta-feira (12).
Leia mais aqui.

sexta-feira, outubro 17, 2014

Dia da Criança

Meu filho Gabriel
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos...


Manoel de Barros

domingo, outubro 12, 2014

Dia da Criança

Eu com 7 anos
O ideal seria uma menina boba: 
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono, 
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome - 
senão que um sorriso triste 
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto 
das crianças que não têm rumo...

Manoel de Barros

terça-feira, setembro 30, 2014

domingo, setembro 21, 2014

Dia da Árvore, A Manoel de Barros

Foto tirada por mim na rua do Catete, set 2014

Sabedoria vegetal

"Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal."
[Manoel de Barros]

Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule
que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.

Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal,                                             
começo de árvore em outra estação.

Solange Firmino.

sexta-feira, julho 04, 2014

Eu no Jardim Botânico - RJ
O ermo que tinha dentro do olho do menino era um defeito de nascença, como ter uma perna mais curta... 
(trecho de 'O fingidor', in Ensaios Fotográficos)

domingo, abril 27, 2014

Rios

Araras - foto tirada por mim




Araras - foto tirada por mim
Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.

domingo, fevereiro 23, 2014

"Um cheiro de malva na manhã"



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.


Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.



sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)

sexta-feira, setembro 13, 2013

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982)

quarta-feira, dezembro 19, 2012

96 anos do poeta


Ao completar 96 anos, Manoel de Barros prefere um aniversário sem convidados

Leia a reportagem neste link.

terça-feira, outubro 09, 2012


Van Gogh, The Starry Night

As coisas muito claras me noturnam.


[Em 'O Fazedor de Amanhecer', edição de 2009]

sábado, setembro 22, 2012

Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Com as palavras se podem multiplicar os silêncios. 


"O fazedor de amanhecer, 2001"

sábado, setembro 15, 2012

Imagem de Raquel Marques
Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas.

"O fazedor de amanhecer, 2001"

sexta-feira, julho 20, 2012

Espetáculo de Dança homenageia Manoel de Barros no Festival de Inverno de Bonito

Como já é tradição no Festival de Inverno de Bonito, a dança tem destaque nos palcos da cidade. Neste ano contará com a apresentação de companhias do Estado e de São Paulo. Um dos espetáculos homenageia o poeta Manoel de Barros. O Festival que acontece de 25 a 29 de julho é uma realização do governo do Estado de Mato Grosso do Sul por meio da Fundação de Cultura.

Leia a notícia aqui.

sábado, fevereiro 04, 2012

Tempo

Imagem de Susana Neto
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
[Memórias inventadas: a segunda infância ]


sexta-feira, outubro 28, 2011

Uma Didática da Invenção

Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho X)

Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho XI)



Imagem: INGÁ, Pb. Fotografia tirada por mim em 2010.

sábado, outubro 30, 2010

Manoel de Barros vence o 6º prêmio BRAVO! de Cultura


Em cerimônia realizada na Sala São Paulo em 25/10/2010, o escritor e poeta Manoel de Barros foi contemplado com o Prêmio BRAVO! Bradesco Prime de Cultura.

“Fiquei satisfeito, não poderia querer coisa melhor”, afirmou Barros em mensagem gravada em vídeo. Em seu discurso de agradecimento, o poeta também se referiu à dimensão artística que definitivamente atingiu na cultura brasileira: “Virei um mito para quem gosta da minha poesia”.

Autor de mais de 30 livros e vencedor do prêmio Jabuti por duas vezes, Manoel de Barros lançou em 2010 sua obra poética completa, além de ganhar uma “desbiografia” autorizada no documentário "Só Dez Por Cento é Mentira", do diretor Pedro Cezar.

Nascido em 1916, cronologicamente Manoel de Barros pertence à Geração de 45, mas formalmente é associado ao Modernismo, com maior aproximação das vanguardas europeias do início do século XX e da Antropofagia de Oswald de Andrade.

De acordo com o site da Fundação Manoel de Barros, um instituto de apoio à cultura e de assistência social batizado em sua homenagem, Barros adota uma temática regionalista e inspirada na natureza, “indo além do valor documental para fixar-se no mundo mágico das coisas banais retiradas do cotidiano”.

(...)

Além do artista do ano, outras 11 categorias foram premiadas na festa, que também incluiu uma recriação de sambas de Noel Rosa, artista que completaria 100 anos em 2010.



sábado, julho 03, 2010

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

[Manoel de Barros]

*Obs.: Do livro: "Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros".
Imagem: Sócrates.

sexta-feira, maio 14, 2010

Manoel de Barros homenageado em Santa Teresa


Nos dias 15 e 16 de maio Alinhar ao centrode 2010 haverá no Rio de Janeiro a Feira Literária de Santa Teresa e os homenageados são Manoel de Barros e Noel Rosa.
O poeta Manoel de Barros respondeu à carta enviada pelo CEAT: "Estou tentando escrever o Livro do Chão. Lá o vento é vertical".
Veja nesse link.

Visite a página da Feira para mais informações:
http://www.flist.org.br


segunda-feira, janeiro 04, 2010

"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."
Cinco palavras bonitas sem as quais escrever não teria tanta graça:
"chão, água, caracol, árvore e garça."
Cinco razões pelas quais vale a pena ser poeta:
"Penso que não tive escolha 
Fui escolhido e gostei da escolha 
Faço o que sonho 
Faço o que gosto 
Sou um pouco irresponsável com os passarinhos, isto seja: 
Sou livre 
Amo a palavra" 

  Imagem: Markus Lüske

segunda-feira, agosto 25, 2008

O primeiro professor de agramática




VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios , não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

[O livro das ignorãnças - 1993]

Uma didádita da invenção


X

Não tem altura o silêncio das pedras.

domingo, agosto 24, 2008

Uma didática da invenção


VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.


Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.


Imagem: Nuno Ferreira

De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.




Imagem: António Durães

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

o menino fazia prodígos.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.



* imagem: Rúbem de Almeida