segunda-feira, junho 21, 2021

"Nadifúndios"

 



V

Eles enverdam jia nas auroras.

São viventes de ermo. Sujeitos

Que magnificam moscas — e que oram

Devante uma procissão de formigas…

São vezeiros de brenhas e gravanhas.

São donos de nadifúndios.

(Nadifúndio é lugar em que nadas

Lugar em que osso de ovo

E em que latas com vermes emprenhados na boca.

Porém.

O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor

de ninguém.

Nem ao Néant de Sartre.

E nem mesmo ao que dizem os dicionários: coisa que

não existe.

O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra

minúscula.)

Se trata de um trastal.

Aqui pardais descascam larvas.

Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.

E uma concha com olho de osso que chora.

Aqui, o luar desova…

Insetos umedecem couros

E sapos batem palmas compridas…

Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.


* Em: O Guardador de águas.

segunda-feira, junho 14, 2021

Tributo a J.G.Rosa

 


Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J.G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.


("Tratado das grandezas do ínfimo")

sábado, maio 15, 2021

Uma didática da invenção


XIX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.


Imagem: Pedro Anahory

domingo, abril 18, 2021

Aprendimentos

 


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura

é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

* Em Memórias inventadas

Obs.: por mais entranha que pareça a "disposição" dos versos, é assim mesmo.

domingo, março 21, 2021

Abandono


 Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

sexta-feira, março 12, 2021

Flores...

 


"Flores engordadas nos detritos até falam!"

(Em Livro de pré-coisas, Poesia completa, Editora Leya, página 221)

* Rosa do meu jardim.

terça-feira, fevereiro 02, 2021

Meu quintal é maior do que o mundo - com Cássia Kiss

 

Em “Meu Quintal é Maior do que o Mundo” a atriz Cássia Kis abre a cena revelando as fontes de inspiração do poeta: a criança, o passarinho e o andarilho. Em seguida, ao pisar num tapete no centro do palco e com um livro em mãos, a atriz evoca o universo poético do cerrado brasileiro, tão bem descrito pelo poeta.
(São Paulo, 2019)

terça-feira, janeiro 19, 2021

O lápis

 


É por demais de grande a natureza de Deus.

Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no fundo corresse um rio.
Na verdade na verdade a coisa mais importante que eu desejava era o rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo 
dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.


Poemas rupestres. Pág. 439 e 440 da minha edição. 
Poesia completa - São Paulo: Leya, 2010.

 

 

quinta-feira, dezembro 24, 2020

Poema de Natal


Eu já postei esse poema, mas este ano ele é muito necessário, pelo isolamento dos idosos e por todos os familiares perdidos para a covid. Que o próximo ano seja mais esperançoso.

Meu abraço e a luz de Manoel de Barros.



"Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos, pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal

E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado!”

quinta-feira, dezembro 17, 2020

Ruína - por Odilon Esteves

 


Já havia posto esse ano a Maria Bethânia recitando esse poema. O poema também está na postagem. Mas o vídeo do Odilon Esteves está legendado. Achei interessante outra leitura. Aliás, existem várias...

terça-feira, dezembro 08, 2020

A natureza era inocente

 


Aquele homem falava com as árvores e com as águas

ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.

mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

domingo, novembro 22, 2020

Excitação da palavra


Bosco Martins a Manoel de Barros - 
Quanto tempo da “inspiração súbita” demora para virar um poema?

Manoel de Barros – Inspiração eu só conheço de nome. O que eu tenho é excitação pela palavra. Se uma palavra me excita eu busco nos dicionários a existência ancestral dela. Nessa busca descubro motivos para o poema.

sexta-feira, novembro 13, 2020

sexta-feira, outubro 30, 2020

O fotógrafo / vídeo

 


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.



(Em Ensaios fotográficos) 


* Observação: de tanto copiar na internet poemas "errados", resolvi copiar dos meus livros. Esse foi copiado da página 379, Poesia Completa da Editora Leya, 2010. 

Assista abaixo o poema "O FOTÓGRAFO", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra. Quem quiser assistir no YouTube, é só clicar em YouTube abaixo do vídeo que abrirá o link em uma nova janela:



quarta-feira, outubro 14, 2020

Dia da criança - Agora eu invento brinquedos com palavras


Minha infância passei em uma fazenda no Pantanal. Nesse lugar o tempo era parado. Ou passava devagar que lesma. Às vezes a lesma chegava primeiro que o fim do dia. Eu não era solitário. Tinha três irmãos. A gente fabricava os nossos brinquedos. No lugar só tinha o nosso rancho e animais de sela. O que sufocava não era a falta de espaço. A gente só via as distâncias. A gente inventava brinquedos o tempo todo. Agora eu invento brinquedos com palavras. Um vício que eu trouxe de lá. – Manoel de Barros

segunda-feira, setembro 28, 2020

O lagarto espichado na areia

 


Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.
Ele falou de sério.
Ficamos instruídos.


(em Poemas Rupestres)

terça-feira, setembro 22, 2020

Hoje começa a primavera!


 

"Na verdade na verdade

os passarinhos que botavam primavera nas palavras".

(trecho de 'Canção do ver', em Poemas Rupestres)

segunda-feira, setembro 21, 2020

sábado, setembro 12, 2020

Um banho de infância

"Manual de Barro" faz apresentação do livro "Concerto a céu aberto para solos de aves" para Manoel de Barros.

E o poeta aprova: "banho de infância em mim" é o que diz ao final da apresentação.