domingo, abril 27, 2014

Rios

Araras - foto tirada por mim




Araras - foto tirada por mim
Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.

domingo, fevereiro 23, 2014

"Um cheiro de malva na manhã"



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.


Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.



sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)

sexta-feira, setembro 13, 2013

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982)

quarta-feira, dezembro 19, 2012

96 anos do poeta


Ao completar 96 anos, Manoel de Barros prefere um aniversário sem convidados

Leia a reportagem neste link.

terça-feira, outubro 09, 2012


Van Gogh, The Starry Night

As coisas muito claras me noturnam.


[Em 'O Fazedor de Amanhecer', edição de 2009]

sábado, setembro 22, 2012

Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Com as palavras se podem multiplicar os silêncios. 


"O fazedor de amanhecer, 2001"

sábado, setembro 15, 2012

Imagem de Raquel Marques
Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas.

"O fazedor de amanhecer, 2001"

sexta-feira, julho 20, 2012

Espetáculo de Dança homenageia Manoel de Barros no Festival de Inverno de Bonito

Como já é tradição no Festival de Inverno de Bonito, a dança tem destaque nos palcos da cidade. Neste ano contará com a apresentação de companhias do Estado e de São Paulo. Um dos espetáculos homenageia o poeta Manoel de Barros. O Festival que acontece de 25 a 29 de julho é uma realização do governo do Estado de Mato Grosso do Sul por meio da Fundação de Cultura.

Leia a notícia aqui.

sábado, fevereiro 04, 2012

Tempo

Imagem de Susana Neto
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
[Memórias inventadas: a segunda infância ]


sexta-feira, outubro 28, 2011

Uma Didática da Invenção

Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho X)

Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

(Uma Didática da Invenção - 1ª parte, trecho XI)



Imagem: INGÁ, Pb. Fotografia tirada por mim em 2010.

sábado, outubro 30, 2010

Manoel de Barros vence o 6º prêmio BRAVO! de Cultura


Em cerimônia realizada na Sala São Paulo em 25/10/2010, o escritor e poeta Manoel de Barros foi contemplado com o Prêmio BRAVO! Bradesco Prime de Cultura.

“Fiquei satisfeito, não poderia querer coisa melhor”, afirmou Barros em mensagem gravada em vídeo. Em seu discurso de agradecimento, o poeta também se referiu à dimensão artística que definitivamente atingiu na cultura brasileira: “Virei um mito para quem gosta da minha poesia”.

Autor de mais de 30 livros e vencedor do prêmio Jabuti por duas vezes, Manoel de Barros lançou em 2010 sua obra poética completa, além de ganhar uma “desbiografia” autorizada no documentário "Só Dez Por Cento é Mentira", do diretor Pedro Cezar.

Nascido em 1916, cronologicamente Manoel de Barros pertence à Geração de 45, mas formalmente é associado ao Modernismo, com maior aproximação das vanguardas europeias do início do século XX e da Antropofagia de Oswald de Andrade.

De acordo com o site da Fundação Manoel de Barros, um instituto de apoio à cultura e de assistência social batizado em sua homenagem, Barros adota uma temática regionalista e inspirada na natureza, “indo além do valor documental para fixar-se no mundo mágico das coisas banais retiradas do cotidiano”.

(...)

Além do artista do ano, outras 11 categorias foram premiadas na festa, que também incluiu uma recriação de sambas de Noel Rosa, artista que completaria 100 anos em 2010.



sábado, julho 03, 2010

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

[Manoel de Barros]

*Obs.: Do livro: "Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros".
Imagem: Sócrates.

sexta-feira, maio 14, 2010

Manoel de Barros homenageado em Santa Teresa


Nos dias 15 e 16 de maio Alinhar ao centrode 2010 haverá no Rio de Janeiro a Feira Literária de Santa Teresa e os homenageados são Manoel de Barros e Noel Rosa.
O poeta Manoel de Barros respondeu à carta enviada pelo CEAT: "Estou tentando escrever o Livro do Chão. Lá o vento é vertical".
Veja nesse link.

Visite a página da Feira para mais informações:
http://www.flist.org.br


segunda-feira, janeiro 04, 2010

"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."
Cinco palavras bonitas sem as quais escrever não teria tanta graça:
"chão, água, caracol, árvore e garça."
Cinco razões pelas quais vale a pena ser poeta:
"Penso que não tive escolha 
Fui escolhido e gostei da escolha 
Faço o que sonho 
Faço o que gosto 
Sou um pouco irresponsável com os passarinhos, isto seja: 
Sou livre 
Amo a palavra" 

  Imagem: Markus Lüske

segunda-feira, agosto 25, 2008

O primeiro professor de agramática




VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios , não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

[O livro das ignorãnças - 1993]