Afundo um pouco o rio com os meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso.
A altura do som é quase azul.
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no dia 19 de dezembro de 1916 e faleceu em 13 de novembro de 2014. Foi advogado, fazendeiro e poeta. O nome do blog é em homenagem ao primeiro livro publicado pelo poeta, em 1937.
Afundo um pouco o rio com os meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso.
A altura do som é quase azul.
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Não possuía mais a pintura de outros tempos.
Era um muro ancião e tinha alma de gente.
Muito alto e firme, de uma mudez sombria.
Certas flores do chão subiam de suas bases
Procurando deitar raízes no seu corpo entregue ao tempo.
Nunca pude saber o que se escondia por detrás dele.
Dos meus amigos de infância, um dizia ter violado tal
segredo,
E nos contava de um enorme pomar misterioso.
Mas eu, eu sempre acreditei que o terreno que ficava atrás
do muro era um terreno abandonado!
Para compor um tratado de passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.
MANOEL DE BARROS
Compêndio para uso dos pássaros
(Poesia reunida 1937-2004)
Quasi Edições, 2007
Hoje, 13 de novembro, é aniversário de morte do poeta.
Costumamos dizer que o poeta virou passarinho...
Ainda comemorando os 107 anos do poeta... Em Campo Grande, estátua em bronze de Manoel de Barros, que sofreu vandalismo, passará por uma revitalização completa. A obra será devidamente reparada pelo artista plástico Ique, inclusive com a reposição de um dos pés da imagem, arrancado em 2021.
VI
Você brincou de mim que uma borboleta
no meu dedo tinha sol?
Você ia pegar agora
o que fugiu de meu rosto agora?
Na beira da pedra aquele cardeal,
você viu?, fez um lindo ninho
escondido bem
para a gente não ir apanhar
seus filhotes, que bom.
Ó meu cardeal,
você não é um sujeito brocoió à toa!
Você é um passarinho de atravessado…
Imagem: Cardeal.
Minha homenagem ao aniversário de morte do poeta Manoel de Barros, que amava os pássaros.
Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho”
"Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores."
(Memórias Inventadas – A terceira infância)
Imagem: Ipê-rosa fotografado por mim no Aterro do Flamengo - Rio de janeiro, em 09/09/2023.
A lua faz silêncio para os pássaros,
- eu escuto esse escândalo!
Um perfume vermelho me pensou.
(Eu contamino a luz do anoitecer?)
Esses vazios me restritam mais.
Alguns pedaços de mim já são desterro.
............................................................
(É a sensatez que aumenta os absurdos?)
De noite bebo água de merenda.
Me mantimento de ventos.
Descomo sem opulências.
Desculpe a delicadeza.
Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando… pingando das árvores…
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas…
Baú de folha de flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo… morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis aos bois.
Em Poesias (1956).
* Os dias 21 e 22 de março marcam a sensibilização acerca dos recursos naturais. Nessas datas, criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), são celebradas o Dia Internacional das Florestas e da Árvore (21) e o Dia Mundial da Água (22).
* A foto do ipê-rosa é de 2022. A árvore coberta com flores que eu tinha para postar mais bonita era esta, em homenagem à primavera no Hemisfério Norte, já que no Brasil começamos o outono dia 20/03/2023.
O leve e macio
raio de sol
se põe no rio.
Faz arrebol…
Da árvore evola
amarelo, do alto
bem-te-vi-cartola
e, de um salto
pousa envergado
no bebedouro
a banhar seu louro
pelo enramado…
De arrepio, na cerca
já se abriu, e seca.
XLV