segunda-feira, abril 03, 2017

O poeta e a palavra

Quando Carlos Drummond de Andrade era considerado o maior poeta brasileiro, outros diziam que João Cabral de Melo Neto era, se não o maior, pelo menos o mais importante, o próprio Drummond disse que o maior poeta brasileiro era Manoel de Barros. 
O próprio Manoel de Barros disse que o nosso melhor poeta era João Cabral. E diz da Geração de 45, a que ele e João Cabral pertencem cronologicamente: 

“Achava e acho ainda que não é hora de reconstrução. Sou mais a palavra arrombada a ponto de escombro. Sou mais a palavra a ponto de entulho ou traste.” Tem consciência crítica, conhece o que é um poema, objeto fechado em si, isto é, a poesia de João Cabral, e sabe que a sua poesia é feita de restos, restolhos. Ele como que se compraz em brincar com as palavras, virá-las e revirá-las nos dedos: “Não tenho outro gosto maior do que descobrir para algumas palavras relações dessuetas e até anômalas.”


Cita Guimarães Rosa: “A poesia nasce de modificações das realidades linguísticas.” Ou Leo Spitzer: “Todo desvio nas normas da linguagem produz poesia”. Mas vai muito mais além: “Instala-se um agramaticalidade quase insana, que empoema o sentido das palavras.” 


A chave está mais no termo “insana” do que apenas em “agramaticalidade”. E vai repetindo, não só por repetir, mas, nessas variações de uma mesma nota, para enfatizar: 


“O sentido normal das palavras não faz bem ao poema./ Há que se dar um gosto incasto aos termos./ Haver com eles um relacionamento voluptuoso./ Talvez corrompê-los até a quimera./ Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. / Não existir rei nem regência./ Uma certa luxúria com as palavras convém.”

Assim se justifica, se fosse preciso se justificar: “O que não sei fazer desconto nas palavras. / (...) Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. / Outras de palavras. / Poetas e tontos se compõem com palavras.” Sabe que o poema é uma forma, um objeto, mas em estado de alucinação: “Designa também a armação de objetos lúdicos com emprego de palavras imagens cores sons etc. geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados.” São objetos lúdicos, mas com os sentidos fora do normal, desregrados.

Sempre valoriza a luxúria da palavra, a mais abjeta: “Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta. / Sou mais a palavra ao ponto de entulho.” É a busca da pureza, da infância do verbo: “Nenhuma voz adquire pureza se não comer na espurcícia. Quem come, pois, do podre, se alimpa. Isso diz o Livro.”

“Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. / No osso da fala dos loucos tem lírios.”

quinta-feira, março 09, 2017

As antíteses consagram

Charles Baudelaire
Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam.


terça-feira, fevereiro 21, 2017

A desbiografia oficial de Manuel de Barros



Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.
Aproveitem antes que o link seja retirado.




sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Sobre administrar o à-toa...

Nasci para administrar o à-toa,
o em vão,
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.

Retiro semelhanças de pessoas com árvore


de pessoas com rãs


de pessoas com pedras


etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Livro sobre Nada


O que não sei fazer desmancho em frases.
Eu fiz o nada aparecer.
(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)
Perder o nada é empobrecimento.
(Livro Sobre Nada, p. 63)

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Desenho em Homenagem a Manoel de Barros

O resultado do Concurso de Desenho Verbal da Imagem, em homenagem a Manoel de Barros no centenário de seu nascimento, foi publicado no Diário Oficial. O objetivo do concurso foi revelar o pensamento, a sensibilidade e a criatividade dos estudantes de Ensino Médio do Estado sobre a poesia "O Menino Que Carregava Água na Peneira", de Manoel de Barros.

http://www.progresso.com.br/caderno-b/desenho-em-homenagem-a-manoel-de-barros


FMB homenageia os 100 anos do poeta

No dia 16 de dezembro, um espetáculo de dança organizado pelos participantes do projeto Ativa Idade será realizado no auditório do Crea-MS, na rua Sebastião Taveira, 272 - Monte Castelo, a partir das 19h, com o tema Manoel de Barros 100 anos.

quarta-feira, novembro 30, 2016

Manoel de Barros e eu


Não saio de dentro de mim nem para pensar.
[Manoel de Barros]


Narciso 

Uno-me tanto a mim, que sou todo verso que me devora: espectro. 
[Solange Firmino]

domingo, novembro 06, 2016

sábado, outubro 15, 2016

Desfolhamentos

Foto tirada por mim na rua do Catete - RJ
"Às vezes passo por desfolhamentos." 

(Livro das ignorãças)

quarta-feira, outubro 12, 2016

Fragmentos de 'O homem de lata'


O homem de lata
arboriza por dois buracos
no rosto
O homem de lata
é armado de pregos
e tem natureza de enguia
…
O homem de lata
traz para a terra
o que seu avô
era de lagarto
o que sua mãe
era de pedra
e o que sua casa
estava debaixo de uma pedra
O homem de lata
é uma condição de lata
e morre de lata
…

“29 escritos para conhecimento do chão através de S. Francisco de Assis”

O chão viça do homem
no olho
do pássaro, viça
nas pernas
do lagarto
e na pedra
Na pedra
o homem empeça
de colear
Colear
advém de lagarto
e não incorre em pássaro…
O homem se arrasta
de árvore
escorre de caracol
nos vergéis
do poema
O homem se arrasta
de ostra
nas paredes
do mar
O homem
é recolhido como destroços
de ostras, traços de pássaros
surdos, comidos de mar
O homem
se incrusta de árvore
na pedra
do mar.

[Em Gramática expositiva do chão]

quarta-feira, setembro 28, 2016

Arte como Poesia, Educação como Política


Foto tirada por mim: Entender é parede / procure ser árvore.
Hoje veio no meio Facebook uma ótima lembrança. Há dois anos foi realizado no Museu da República o evento "ArvoreSer", com trechos de poemas de Manoel de Barros. 


https://www.facebook.com/institutotear

http://institutotear.org.br

Choveu e o evento foi no dia 28.

terça-feira, setembro 20, 2016

É HOJE!!!

Em celebração aos 100 anos do nascimento do poeta, o governo do Estado de Mato Grosso do Sul, por meio da Secretaria de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação e da Fundação de Cultura, realiza o projeto “Homenagem ao Poeta Manoel de Barros no Centenário de seu Nascimento”.
O lançamento da programação desta homenagem acontece em 20 de setembro, no Museu de Arte Contemporânea (Marco), às 19h, durante a abertura oficial da Primavera dos Museus.

http://www.oestadoonline.com.br/2016/09/homenagem-ao-poeta-manoel-de-barros-sera-lancada-terca/

quinta-feira, setembro 08, 2016

Formiga...

Formiga é um ser tão pequeno que não aguenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.  

Do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas)

quarta-feira, setembro 07, 2016

Narciso - Eu e Manoel

Narciso de Waterhouse
“As palavras têm sedimentos. Têm boa cópia de lodo, usos do povo, cheiros de infância, permanências por antros, ancestralidades, bosta de morcegos etc. não vou encostar as palavras, etc. pois elas são meus espelhos. Sou o narciso delas”[Manoel de Barros]

Narcisista

Como aprender a me achar
Sem me perder?
O reflexo não me explica,
Apenas me consome
E me prende.

Uno-me tanto a mim
Que meus átomos se juntam
Ao meu reflexo.

Como Narciso,
Acho-me
No reverso, no inverso,
No espectro que me devora.

Quando me perco,
É quando me encontro.

Solange Firmino


Paisagem

A céu aberto,

O espelho líquido Reflete a pedra.

Incrustada na própria imagem,
A pedra faz-se dupla,
Imagem de Joel dos Santos
Colada ao céu,
Fincada na água.

Fosse a pedra Narciso,
O lago não seria tão fundo.

Solange Firmino




quinta-feira, setembro 01, 2016

Violeta africana
Uma violeta me pensou.

Me encostei no azul de sua tarde.

Do "Livro Sobre Nada".

Fragmentos da Insônia


Este poema meu é dedicado a Manoel de Barros, está no meu livro "Fragmentos da Insônia".
Quem quiser encomendar comigo,
enviar um e-mail para
solange.firmino@gmail.com