sexta-feira, outubro 17, 2014

Dia da Criança

Meu filho Gabriel
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos...


Manoel de Barros

domingo, outubro 12, 2014

Dia da Criança

Eu com 7 anos
O ideal seria uma menina boba: 
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono, 
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome - 
senão que um sorriso triste 
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto 
das crianças que não têm rumo...

Manoel de Barros

terça-feira, setembro 30, 2014

domingo, setembro 21, 2014

Dia da Árvore, A Manoel de Barros

Foto tirada por mim na rua do Catete, set 2014

Sabedoria vegetal

"Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal."
[Manoel de Barros]

Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule
que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.

Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal,                                             
começo de árvore em outra estação.

Solange Firmino.

sexta-feira, julho 04, 2014

Eu no Jardim Botânico - RJ
O ermo que tinha dentro do olho do menino era um defeito de nascença, como ter uma perna mais curta... 
(trecho de 'O fingidor', in Ensaios Fotográficos)

domingo, abril 27, 2014

Rios

Araras - foto tirada por mim




Araras - foto tirada por mim
Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.

domingo, fevereiro 23, 2014

"Um cheiro de malva na manhã"



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.


Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.



sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)

sexta-feira, setembro 13, 2013

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982)

quarta-feira, dezembro 19, 2012

96 anos do poeta


Ao completar 96 anos, Manoel de Barros prefere um aniversário sem convidados

Leia a reportagem neste link.

terça-feira, outubro 09, 2012


Van Gogh, The Starry Night

As coisas muito claras me noturnam.


[Em 'O Fazedor de Amanhecer', edição de 2009]

sábado, setembro 22, 2012

Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


Parrrede!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros

(No livro Memórias Inventadas, As infância de Manoel de Barros)


Com as palavras se podem multiplicar os silêncios. 


"O fazedor de amanhecer, 2001"

sábado, setembro 15, 2012

Imagem de Raquel Marques
Só o silêncio faz rumor no voo das borboletas.

"O fazedor de amanhecer, 2001"

sexta-feira, julho 20, 2012

Espetáculo de Dança homenageia Manoel de Barros no Festival de Inverno de Bonito

Como já é tradição no Festival de Inverno de Bonito, a dança tem destaque nos palcos da cidade. Neste ano contará com a apresentação de companhias do Estado e de São Paulo. Um dos espetáculos homenageia o poeta Manoel de Barros. O Festival que acontece de 25 a 29 de julho é uma realização do governo do Estado de Mato Grosso do Sul por meio da Fundação de Cultura.

Leia a notícia aqui.

sábado, fevereiro 04, 2012

Tempo

Imagem de Susana Neto
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
(...)
[Memórias inventadas: a segunda infância ]