quarta-feira, novembro 30, 2022

Bernardo - vídeo


Bernardo já estava uma árvore quando
eu o conheci.
Passarinhos já construíam casa na palha
do seu chapéu.
Brisas carregavam borboletas para o seu paletó.
E os cachorros usavam fazer de poste as suas
pernas.
Quando estávamos todos acostumados com aquele
bernardo-árvore
ele bateu asas e avoou.
Virou passarinho.
Foi para o meio do cerrado ser um arãquã.

Sempre ele dizia que o seu maior sonho era
ser um arãquã para compor o amanhecer.


* O vídeo de Bernardo foi baseado no poema de Manoel de Barros e organizado por "Crianceiras". Vejam no YouTube.

domingo, novembro 13, 2022

Aniversário de morte do poeta


O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!”

[Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007]



terça-feira, setembro 27, 2022

Casa-quintal do poeta Manoel de Barros abre as portas como centro cultural - e mostra poema inédito!

 

Em 25/09/2022 a casa em que Manoel de Barros viveu durante as últimas três décadas de sua vida foi inaugurada como espaço cultural. O acervo conta com cartas e itens que vão desde seu relógio até os últimos lápis. Além de um poema inédito!



Nomeado “Casa-Quintal Manoel de Barros”, o lar do poeta, localizado na Rua Piratininga, número 363, agora expõe tanto seus itens pessoais, como roupas, quanto os móveis usados por ele, sua esposa Stella Barros e família. 


Escritório ou "Lugar de Ser Inútil"

No andar de cima da casa, o escritório de Manoel de Barros foi mantido tanto pela família quanto pelo grupo de amigos, que organizou o acervo. Toda de madeira e preenchida por marcas de uso, a escrivaninha segue com os lápis, miniaturas de decoração e alguns blocos de notas. 

Em breve, aberto ao público - Com visitas guiadas, o público poderá agendar a visitação através da plataforma Sympla a partir do dia 28 de setembro. 
De acordo com os organizadores, a entrada irá custar R$ 35. 



quarta-feira, setembro 21, 2022

Dia da árvore

 


Eu combino melhor com árvores. Totalmente ao senhor eu falo: quem ouve a fonte dos tontos não cabe mais dentro dele. Outra pessoa desabre.


Imagem: Árvore no muro do bairro da editora do blog, Solange Firmino, Rio de Janeiro - eu, que AMO árvores.

sábado, setembro 10, 2022

Lesma





VI 

Toda vez que encontro uma parede ela me entrega às suas lesmas. Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas. Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim. Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes? Parece que lesma só é uma divulgação de mim. Penso que dentro de minha casca não tem um bicho: Tem um silêncio feroz. Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra. 

in: "O Livro das Ignorãças" 

* Imagem: lesma rosa florescente encontrada somente na Austrália.

segunda-feira, agosto 22, 2022

O silêncio branco - vídeo Crianceiras

 


Larandá, larandá, randá, randá
Larandá, randá, randá
Larandá, randá

O silêncio branco
A elegância e o branco
Devem muito às garças
Elas chegam de onde a beleza nasceu

As garças dormem na beira da cor
Tem esses pernaltas a incumbência de enfeitar os brejos

Quem pode saber mais do êxtase destes sáurios
Do que as garças
A elegância da garça
Desabrochar, desabrochar, desabrochar
No brejo

Larandá, larandá, randá, randá
Larandá, randá, randá
Larandá, randá

O silêncio branco
A elegância e o branco
Devem muito às garças
Elas chegam de onde a beleza nasceu

As garças dormem na beira da cor
Tem esses pernaltas a incumbência de enfeitar os brejos

Quem pode saber mais do êxtase destes sáurios
Do que as garças
A elegância da garça
Desabrochar, desabrochar, desabrochar
No brejo
Desabrochar, desabrochar, desabrochar

No brejo


* Poema de Manoel de Barros musicado por Márcio De Camillo para o APP Crianceiras. 

sábado, agosto 06, 2022

Sobre o interesse nos pássaros

 


"De onde vem seu interesse particular pelos pássaros?"

"Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma 'despalavra'."

sábado, julho 23, 2022

O quintal

 


Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. 

(...) 

Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.

(...)


Memórias inventadas: a infância

segunda-feira, julho 11, 2022

Manhã no rio

 


"Eu vi uma manhã desaberta na beira de um rio igual que uma garça estivesse desaberta na beira do rio."


*Foto por mim em Ingá -  Paraíba.

domingo, junho 26, 2022

sexta-feira, junho 17, 2022

No aeroporto

 



No aeroporto o menino perguntou:
— E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.


Imagem: Fotografia tirada do meu livro "Exercícios de Ser Criança"

quinta-feira, maio 19, 2022

Pássaros

 

A maneira de dar canto às palavras o menino aprendeu com os passarinhos.



No gorjeio dos pássaros tem um perfume de sol?



Em: Cadernos de aprendiz

sexta-feira, abril 22, 2022

A gente passeava nas origens

 


A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens. Bernardo conversava pedrinhas
com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água
na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
Infantis gerava mais poesia do que obedecer
as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das
palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de
Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.

terça-feira, março 22, 2022

Dia internacional das florestas



As árvores velhas quase todas foram preparadas para o exílio das cigarras.
Salustiano, um índio guató, me ensinou isso.
E me ensinou mais: Que as cigarras do exílio são os únicos seres que sabem de cor quando a noite está coberta de abandono.
Acho que a gente deveria dar mais espaço para esse tipo de saber.
O saber que tem força de fontes.


(Em: Biografia do orvalho)



Os dias 21 e 22 de março marcam a sensibilização acerca dos recursos naturais. Nessas datas, criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), são celebradas o Dia Internacional das Florestas e da Árvore (21) e o Dia Mundial da Água (22).


Imagem: Por mim na Floresta Amazônica, Manaus - AM.

quinta-feira, março 17, 2022

Poemas concebidos sem pecado

 


Em entrevista a José Castello, Manoel de Barros falou sobre seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, em 1937.

JC - Como você publicou seu primeiro livro?


Manoel - A primeira edição de Poemas Concebidos sem Pecado foi rodada na prensa manual de um diplomata, o Henrique Rodrigues Vale. Foram só 20 ou 30 exemplares, dados de presente. Não guardei nenhum.

JC - Quando você o lê, hoje, o que acha?


Manoel - Acho que esse meu primeiro livro é meu melhor livro. Tudo o que escrevi depois vem dele. Ali, eu já tinha a noção do valor linguístico da poesia. Poesia não é para contar história, poesia é um fenômeno de linguagem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2022

Cássia Kis encena Manoel de Barros

 


A atriz Cássia Kis volta em cartaz com o espetáculo "Meu Quintal é Maior do que o Mundo", em temporada de 4 a 27 de março, com sessões de sexta a domingo, no Teatro Vivo.

O espetáculo é formado por textos do livro "Memórias Inventadas", primeiro livro de prosa de Manoel de Barros, publicado em 2005. Com uma linguagem coloquial e poética, Manoel de Barros escreveu sobre temas como o cotidiano e a natureza. 

Cássia estabelece cumplicidade com a plateia ao interpretar quatro diferentes personagens: um menino com 5 anos, um jovem de 15, um homem de 40 e um idoso de 85. 

Conhecedora da obra do poeta, Cássia Kis  é uma excelente leitora do escritor mato-grossense. Após descobrir sua poesia em 1980, estabeleceu uma relação não só com a obra do autor, mas com o próprio Manoel, com quem se correspondia e de quem se tornou amiga.
 

Serviço:

Meu Quintal é Maior do que o Mundo

Temporada: De 4 a 27 de março de 2022 – Sextas-feiras às 20h, sábados às 21h e domingos às 18h.

Ingressos: R$ 60,00 (inteira) R$ 30,00 (meia).

Duração: 70 minutos.

Classificação etária: Livre.

Gênero: Prosa Poética.

TEATRO VIVO – Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi

Bilheteria: Terça a quinta, das 14h às 20h; sexta a domingo, das 14h até o início do espetáculo. Capacidade: a ser definida, conforme protocolos estabelecidos no início do mês de março pela prefeitura da cidade de São Paulo. Informações: (11) 3279-1520. Vendas pelo site Ingresso Rápido.

Orientações do Teatro Vivo para meia entrada

NOVA REGRA da MEIA ENTRADA – Estudante, Senior, Professor, Aposentados e Deficientes mais acompanhantes e Pessoas de Baixa Renda.

Concedemos também para pagar meia à CLASSE ARTÍSTICA

– 50% de desconto para o Cliente Vivo Valoriza para até 2 ingressos por pessoa.

– 50% de desconto ao Funcionário da Vivo para até 2 ingressos por pessoa.

quinta-feira, fevereiro 10, 2022

A arte de infantilizar formigas

 


Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.

sexta-feira, janeiro 28, 2022

quinta-feira, janeiro 13, 2022

Manoel de Barros é vetado no Enem...


Poeta Manoel de Barros foi vetado do Enem por "contrariar" trecho da Bíblia 


Documentos sobre a elaboração da prova de 2019 mostram 66 questões excluídas 


Por Ângela Kempfer | 18/11/2021 


Após 2 anos, quem luta para enfrentar o Enem descobre que um dos conteúdos mais exigidos durante a preparação já foi boicotado da prova. Documentos divulgados agora mostram que em 2019 houve censura à poesia de Manoel de Barros no Exame Nacional do Ensino Médio. 

A questão surgiu de “O Livro das Ignorãças”. Contrariando a Bíblia, Manoel escreveu: “No descomeço era o verbo”, uma oposição a “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus (João 1:1-4)”. 

Na justificativa dos censores, usar tal verso “fere sentimento religioso e a liberdade de crença.” 

(...)

Para educadores, Manoel é um dos 15 escritores mais citados em provas do Enem e vestibulares por “desenvolver uma poética singular, marcada por narrativas alegóricas, que transparecem nas imagens construídas ao longo do texto... transitam entre o sonho e a racionalidade, características singulares que fizeram dele um dos maiores poetas brasileiros”.

(...)


Quem quiser passar pela página cheia de pop-ups:


CRÉDITO: CAMPO GRANDE NEWS

domingo, janeiro 09, 2022

A natureza e seus fragmentos

 


Na fonte da poesia de Manoel de Barros existe uma relação de promiscuidade com a natureza – tanto a das palavras quanto a das plantas e dos bichos (inclusive os humanos, sobretudo os rasteiros). 


No entanto, o mundo que lemos nos versos do poeta parece filtrado por um olhar infantil, desacostumado: brincando com os termos e as normas da língua, Manoel ia derrubando as paredes entre espécies, gêneros, famílias, reinos. “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, escreveu ele em O Livro das Ignorãças (1993). 

Como, então, um cientista lê os versos do autor? As diferentes formas de encarar a natureza – e de se encantar com ela – se excluem? 

Neste vídeo, a questão é pensada por quatro biólogos: Bruss Lima, que estuda as atividades cerebrais de primatas não humanos; Carlos Hotta, cujas pesquisas se concentram no relógio biológico das plantas; Hugo Aguilaniu, especialista em genética do envelhecimento e diretor-presidente do Instituto Serrapilheira; e Nurit Bensusan, que atua no campo das políticas públicas para a conservação da biodiversidade e escreve livros dedicados à popularização das ciências. 


* Depoimentos gravados entre outubro e novembro de 2018, em São Paulo/SP e no Rio de Janeiro/RJ.