Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no dia 19 de dezembro de 1916 e faleceu em 13 de novembro de 2014. Foi advogado, fazendeiro e poeta. O nome do blog é em homenagem ao primeiro livro publicado pelo poeta, em 1937.
domingo, março 21, 2021
Abandono
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)
sexta-feira, março 12, 2021
Flores...
"Flores engordadas nos detritos até falam!"
(Em Livro de pré-coisas, Poesia completa, Editora Leya, página 221)
* Rosa do meu jardim.
terça-feira, fevereiro 02, 2021
Meu quintal é maior do que o mundo - com Cássia Kiss
terça-feira, janeiro 19, 2021
O lápis
É por demais de grande a natureza de Deus.Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no fundo corresse um rio.
Na verdade na verdade a coisa mais importante que eu desejava era o rio.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.
quinta-feira, dezembro 24, 2020
Poema de Natal
Eu já postei esse poema, mas este ano ele é muito necessário, pelo isolamento dos idosos e por todos os familiares perdidos para a covid. Que o próximo ano seja mais esperançoso.Meu abraço e a luz de Manoel de Barros.
"Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer as suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos, pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo é de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Jesus
Será o Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado!”
sábado, dezembro 19, 2020
quinta-feira, dezembro 17, 2020
Ruína - por Odilon Esteves
Já havia posto esse ano a Maria Bethânia recitando esse poema. O poema também está na postagem. Mas o vídeo do Odilon Esteves está legendado. Achei interessante outra leitura. Aliás, existem várias...
terça-feira, dezembro 08, 2020
A natureza era inocente
Aquele homem falava com as árvores e com as águasao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.
domingo, novembro 22, 2020
Excitação da palavra
Bosco Martins a Manoel de Barros - Quanto tempo da “inspiração súbita” demora para virar um poema?
Manoel de Barros – Inspiração eu só conheço de nome. O que eu tenho é excitação pela palavra. Se uma palavra me excita eu busco nos dicionários a existência ancestral dela. Nessa busca descubro motivos para o poema.
sexta-feira, novembro 13, 2020
No meu morrer tem uma dor de árvore
sexta-feira, outubro 30, 2020
O fotógrafo / vídeo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
(Em Ensaios fotográficos)
Assista abaixo o poema "O FOTÓGRAFO", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra. Quem quiser assistir no YouTube, é só clicar em YouTube abaixo do vídeo que abrirá o link em uma nova janela:
quarta-feira, outubro 14, 2020
Dia da criança - Agora eu invento brinquedos com palavras
segunda-feira, setembro 28, 2020
O lagarto espichado na areia
(em Poemas Rupestres)
terça-feira, setembro 22, 2020
Hoje começa a primavera!
"Na verdade na verdade
os passarinhos que botavam primavera nas palavras".segunda-feira, setembro 21, 2020
sábado, setembro 12, 2020
Um banho de infância
"Manual de Barro" faz apresentação do livro "Concerto a céu aberto para solos de aves" para Manoel de Barros.
E o poeta aprova: "banho de infância em mim" é o que diz ao final da apresentação.
segunda-feira, agosto 31, 2020
Maria Bethânia lê Manoel de Barros
A cantora Maria Bethânia lê o poema Ruína, do poeta Manoel de Barros.
Postagem no YouTube de Junior Zenith.
sexta-feira, agosto 14, 2020
O ser letral
terça-feira, agosto 04, 2020
Sobre nada e poesia
sexta-feira, julho 24, 2020
Ninguém é pai de um poema sem morrer
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
domingo, julho 12, 2020
Poesia não é demonstrativa
terça-feira, junho 30, 2020
Desvio
(Em carta a José Castello)
quarta-feira, junho 17, 2020
O recolhimento da concha
quinta-feira, junho 04, 2020
Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que me faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas…
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
sábado, maio 30, 2020
Explicando o gosto mais literário que revolucionário
domingo, maio 10, 2020
No aeroporto...
— E se o avião tropicar num passarinho?O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
— E se o avião tropicar num passarinho triste?A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.E ficou sendo.
Manoel de Barros, in Exercícios de Ser Criança.
* Hoje é dia das mães.
domingo, abril 05, 2020
Mansidão (Obs.: A população mundial passando pelo isolamento social)
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| Janela do meu quarto em abril |
domingo, março 08, 2020
Quem anda no trilho...
– Manoel de Barros, em “Matéria de Poesia”
sábado, fevereiro 08, 2020
Invencionática
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
terça-feira, janeiro 21, 2020
Desejar ser
1.
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
2.
terça-feira, janeiro 07, 2020
Árvore
terça-feira, dezembro 03, 2019
"Meus poemas sofrem de mim"
Entrevista a José Castello para o Estado.
sexta-feira, novembro 22, 2019
Retrato do artista quando coisa (Para Graça Pires)
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| Foto tirada por mim no Museu da República. Árvore onde meu filho brincava que foi cortada. Tem um passarinho no primeiro tronco à esquerda. |
Tem por lá um menino a brincar no terreiro: entre conchas, osso de arara, pedaços de pote, sabugos, asas de caçarolas etc.
E tem um carrinho de bruços no meio do terreiro.
O menino cangava dois sapos e os botava a puxar o carrinho.
Faz de conta que ele carregava areia e pedras no seu caminhão.
O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo umas latas tristes.
Era sempre um barbante sujo.
Eram sempre umas latas tristes.
O menino é hoje um homem douto que trata com física quântica.
Mas tem nostalgia das latas.
Tem saudades de puxar por um barbante sujo umas latas tristes.
Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem douto encomendou uma árvore torta –
Para caber nos seus passarinhos.
De tarde os passarinhos fazem árvore nele.
Em: Em Retrato Do Artista Quando Coisa
* Ofereço essa postagem a minha amiga Graça Pires, que faz aniversário hoje.
domingo, outubro 20, 2019
segunda-feira, outubro 07, 2019
Mês da Criança
| Eu com 5 e 7 anos |
sábado, setembro 21, 2019
Mundo pequeno
in: "O Livro das Ignorãças"
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| Foto tirada por mim em frente à casa da minha avó. |
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
segunda-feira, agosto 26, 2019
Beethoven e o erro perfeito
sábado, agosto 10, 2019
O canto dos pássaros e a despalavra
sábado, junho 15, 2019
Os bens do poeta
travador de amanhecer, uma teologia do traste, uma
folha de assobiar, um alicate cremoso, uma escória
de brilhantes, um parafuso de veludo e um lado
primaveril"
- Manoel de Barros, excerto "XII - Sábia com trevas", no livro "Arranjos para assobio" (1980)
sábado, junho 01, 2019
Pregos
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônio inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.
sexta-feira, março 15, 2019
Manoel de Barros e os entulhos necessários ao poema
Trechos:
“escombros” é uma imagem forte na poética de manoel de barros. talvez seja toda uma poética dotada de restos e do que não tem serventia, do que na prática se pratica pela inutilidade – o inutensílio que é mais que objeto, que é também um lugar.
(...)
o poema que traz a gente a essa prosa é um exercício de recomeços. diria até que seria uns pertences desconexos que se juntam ao que desde sempre fora um núcleo repartido, mas ao mesmo tempo vigente na locução de seus conflitos.
(...)
coisinhas: osso de borboleta pedras
com que as lavadeiras usam o rio
pessoa adaptada à fome e o mar
encostado em seus andrajos como um tordo!
o hino da borra escova
sem motor ACEITA-SE ENTULHO PARA O POEMA
ferrugem de sol nas crianças raízes
de escória na boca do poeta beira de rio
que é uma coisa muito passarinhal! ruas
entortadas de vaga-lumes
traste de treze abas e seus favos empedrados
de madeira sujeito com ar de escolhos inseto
globoso de agosto árvore brotada
sobre uma boca em ruínas
retrato de sambixuga pomba estabelecida
no galho de uma estrela! riacho com osso de fora
coberto de aves pinicando
suas tripas e embostando de orvalho
suas pedras indivíduo que pratica nuvens ACEITA-SE
ENTULHO PARA O POEMA moço que tinha
seu lado principal caindo água e o outro lado
mais pequeno tocando larvas!
rã de luaçal
sábado, fevereiro 16, 2019
Rascunhos de Manoel de Barros são expostos em SP de fevereiro até abril de 2019
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| Manoel de Barros em NYC, 1947 |
Materiais foram reunidos e organizados pela filha e artista plástica Martha de Barros
A 43ª Ocupação Itaú Cultural em homenagem ao poeta, em São Paulo, foi aberta no dia 13/02/19, e reúne rascunhos, cartas, fotos e outros materiais inéditos do autor cuiabano que escolheu Campo Grande como morada.
Desde a morte do poeta, em 2014, a filha do poeta, a artista plástica Martha de Barros, diz estar organizando materiais inéditos deixados por ele no escritório da casa da família, onde ainda hoje mora a esposa, Dona Estela.
Martha passou um ano e meio reunindo e organizando o arquivo do pai, que continha manuscritos em cadernos de vários formatos, cartas, fotos, além do material literário.
Colecionar caderninhos repletos de observações era uma das manias de Manoel. Por isso, uma das atividades da mostra será oficina de encadernação.
Nos dias 23 e 24 de fevereiro, último fim de semana do mês, os visitantes vão criar seus próprios caderninhos de rascunho.
Alguns dos itens mais especiais que agora serão vistos na exposição são as cartas trocadas entre o autor e personalidades como o desenhista Millôr Fernandes, os escritores Mário de Andrade e Carlos Drummond e o chargista Henfil.
O Itaú Cultural fica na Avenida Paulista, 149, em São Paulo (SP). A visitação é gratuita e ficará aberta até 7 de abril, de terça a sexta, das 9h às 20h. Aos sábado, domingos e feriados, o funcionamento é de 11h as 20h.
O Itaú Cultural fica na Avenida Paulista, 149, em São Paulo (SP). A visitação é gratuita e ficará aberta até 7 de abril, de terça a sexta, das 9h às 20h. Aos sábado, domingos e feriados, o funcionamento é de 11h as 20h.
quarta-feira, dezembro 19, 2018
AUTORRETRATO
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| Imagem: Projetos Mudas de Igreja |
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!
terça-feira, dezembro 11, 2018
O palhaço
Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja.
Vinha pingando oceano!
Todo estragado de azul.
[Manoel de Barros]
in: Matéria de Poesia
* Foto: Eu, de palhaça Borboleta
* Dia 10/12, ontem, foi dia do palhaço.







































