quarta-feira, outubro 12, 2016

“29 escritos para conhecimento do chão através de S. Francisco de Assis”

O chão viça do homem
no olho
do pássaro, viça
nas pernas
do lagarto
e na pedra
Na pedra
o homem empeça
de colear
Colear
advém de lagarto
e não incorre em pássaro…
O homem se arrasta
de árvore
escorre de caracol
nos vergéis
do poema
O homem se arrasta
de ostra
nas paredes
do mar
O homem
é recolhido como destroços
de ostras, traços de pássaros
surdos, comidos de mar
O homem
se incrusta de árvore
na pedra
do mar.

[Em Gramática expositiva do chão]

quarta-feira, setembro 28, 2016

Arte como Poesia, Educação como Política


Foto tirada por mim: Entender é parede / procure ser árvore.
Hoje veio no meio Facebook uma ótima lembrança. Há dois anos foi realizado no Museu da República o evento "ArvoreSer", com trechos de poemas de Manoel de Barros. 


https://www.facebook.com/institutotear

http://institutotear.org.br

Choveu e o evento foi no dia 28.

terça-feira, setembro 20, 2016

É HOJE!!!

Em celebração aos 100 anos do nascimento do poeta, o governo do Estado de Mato Grosso do Sul, por meio da Secretaria de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação e da Fundação de Cultura, realiza o projeto “Homenagem ao Poeta Manoel de Barros no Centenário de seu Nascimento”.
O lançamento da programação desta homenagem acontece em 20 de setembro, no Museu de Arte Contemporânea (Marco), às 19h, durante a abertura oficial da Primavera dos Museus.

http://www.oestadoonline.com.br/2016/09/homenagem-ao-poeta-manoel-de-barros-sera-lancada-terca/

quinta-feira, setembro 08, 2016

Formiga...

Formiga é um ser tão pequeno que não aguenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.  

Do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas)

quarta-feira, setembro 07, 2016

Narciso - Eu e Manoel

Narciso de Waterhouse
“As palavras têm sedimentos. Têm boa cópia de lodo, usos do povo, cheiros de infância, permanências por antros, ancestralidades, bosta de morcegos etc. não vou encostar as palavras, etc. pois elas são meus espelhos. Sou o narciso delas”[Manoel de Barros]

Narcisista

Como aprender a me achar
Sem me perder?
O reflexo não me explica,
Apenas me consome
E me prende.

Uno-me tanto a mim
Que meus átomos se juntam
Ao meu reflexo.

Como Narciso,
Acho-me
No reverso, no inverso,
No espectro que me devora.

Quando me perco,
É quando me encontro.

Solange Firmino


Paisagem

A céu aberto,

O espelho líquido Reflete a pedra.

Incrustada na própria imagem,
A pedra faz-se dupla,
Imagem de Joel dos Santos
Colada ao céu,
Fincada na água.

Fosse a pedra Narciso,
O lago não seria tão fundo.

Solange Firmino




quinta-feira, setembro 01, 2016

Violeta africana
Uma violeta me pensou.

Me encostei no azul de sua tarde.

Do "Livro Sobre Nada".

Fragmentos da Insônia


Este poema meu é dedicado a Manoel de Barros, está no meu livro "Fragmentos da Insônia".
Quem quiser encomendar comigo,
enviar um e-mail para
solange.firmino@gmail.com



domingo, agosto 28, 2016

II Mostra de Esculturas Monumentais na Praça Paris

A Mostra Rio de Esculturas Monumentais retorna com sua segunda edição na Praça Paris, no bairro da Glória, e ficará até 25 de seteembro de 2016, com a participação de 17 artistas do Rio de Janeiro e outros estados.
A iniciativa dá seguimento a sua primeira edição, realizada na Praça Paris em 2014.

Do artista Angelo Milani, de São Paulo, a instalação “Naveganças”, vem atraindo grande atenção de adultos e crianças. A obra é inteiramente interativa onde os visitantes podem entrar no interior da mesma, confeccionada com refugos domésticos e industriais, com 36 m² de base e 5m de altura, conta também com trechos de 400 poesias plotadas em espelhos automotivos, dos poetas Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Cora Coralina, entre outros.

Do site Catraca Livre


Foto tirada por mim: Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.//  O Homem que possui um pente e uma árvore servem para a poesia.

Foto tirada por mim: Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Foto tirada por mim: Não gosto de palavra acostumada.


sexta-feira, agosto 26, 2016

Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que 
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui 
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso 
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado 
e disse que eu tivera um vareio da imaginação. 
Mas que esses vareios acabariam com os estudos. 
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li 
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. 
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande 
saber. Achei que os eruditos nas suas altas 
abstrações se esqueciam das coisas simples da 
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase: 
A imaginação é mais importante do que o saber. 
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei 
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu 
olho começou a ver de novo as pobres coisas do 
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam 
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no 
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas 
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania 
nem pra ser um bentevi.




Em "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.

Dos passarinhos...


segunda-feira, julho 18, 2016

Prefácio



Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

quarta-feira, junho 22, 2016

O livro sobre nada



É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

quinta-feira, junho 09, 2016

O fazedor de amanhecer


Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

sábado, maio 14, 2016

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

sexta-feira, maio 13, 2016

Tratado geral das grandezas do ínfimo


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Rio

''Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa, Ele me rã, Ele me árvore.''

(Manoel de Barros)
Vianópolis - Goiás, Foto tirada por mim.

A palavra...

Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta, a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.(Manoel de Barros)

terça-feira, outubro 20, 2015

Dia do Poeta - 20 de outubro

Um dos versos de que mais gosto desse poeta maravilhoso:

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."

terça-feira, outubro 13, 2015

“O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!”


[Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007]

sexta-feira, outubro 09, 2015

Peça teatral "O delírio do verbo"

Estreou em outubro no Rio de Janeiro, no Teatro Cândido Mendes, e fica em cartaz até dezembro.


Link no youtube com trechos da peça: https://www.youtube.com/watch?t=48&v=6evkyDUqEsI

Há uma página no facebook para acompanhar o trabalho do ator Jonas Bloch com a peça, baseada na obra de Manoel de Barros:
 https://www.facebook.com/odeliriodoverbo


quarta-feira, outubro 07, 2015

Dia da Criança - Manoel por Manoel


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

(Manoel de Barros - Memórias inventadas)

domingo, setembro 27, 2015

Foto tirada pelo cantor Leoni

XIX
De tarde o horizonte amolece meu olho.
Põe breu.
De manhã faço abluções com orvalho.

[Manoel de Barros, Concerto a céu aberto para solos de aves]

sexta-feira, setembro 04, 2015

Ilha de Paquetá - foto tirada por mim em julho de 2015












"Águas são fêmeas de chão. 
Ambas, água e chão 
Merecem o gosto
De se entrarem."

[Manoel de Barros]


"Manoel de Barros: O Demiurgo das Terras Encharcadas -  Educação pela vivência do chão", Maria Cristina de Aguiar Campos, Faculdade de Educação da USP. Página 223.

quarta-feira, novembro 12, 2014

Poeta Manoel de Barros tem piora no quadro clínico

O poeta Manoel de Barros, de 97 anos, segue internado em leito da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Proncor de Campo Grande e apresentou piora dos parâmetros clínicos, conforme boletim médico divulgado na manhã desta quarta-feira (12).
Leia mais aqui.

sexta-feira, outubro 17, 2014

Dia da Criança

Meu filho Gabriel
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos...


Manoel de Barros

domingo, outubro 12, 2014

Dia da Criança

Eu com 7 anos
O ideal seria uma menina boba: 
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono, 
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome - 
senão que um sorriso triste 
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto 
das crianças que não têm rumo...

Manoel de Barros

terça-feira, setembro 30, 2014

domingo, setembro 21, 2014

Dia da Árvore, A Manoel de Barros

Foto tirada por mim na rua do Catete, set 2014

Sabedoria vegetal

"Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal."
[Manoel de Barros]

Da árvore, admiro as raízes fincadas na terra fértil.
Quero ser forte como o caule
que suporta adversidades.
Venero os galhos que acolhem ninhos.

Invejo a sombra confortável
e os frutos que guardam a semente.
Quando chega o outono,
saúdo as folhas que enfeitam o chão,
húmus vegetal,                                             
começo de árvore em outra estação.

Solange Firmino.

sexta-feira, julho 04, 2014

Eu no Jardim Botânico - RJ
O ermo que tinha dentro do olho do menino era um defeito de nascença, como ter uma perna mais curta... 
(trecho de 'O fingidor', in Ensaios Fotográficos)

domingo, abril 27, 2014

Rios

Araras - foto tirada por mim




Araras - foto tirada por mim
Gosto dos rios. E gosto mais quando eles estão nas margens dos meninos, dos pássaros, das árvores, das pedras, das lesmas, dos ventos, do sol, dos sapos, das latas e de todas as coisas sem tarefas urgentes. Os rios são uma das fontes da minha poesia porque as garças pousam neles com os olhos cheios de sol e de neblina. Porque as rãs paridas nas suas margens gorjeiam como os pássaros. Porque as libélulas, também chamadas de lava-bundas, farreiam na flor de suas águas. E porque o menino, em cujas margens o rio corre, guarda no olho as coisas que viu passar.

domingo, fevereiro 23, 2014

"Um cheiro de malva na manhã"



Graúna - Paraty, foto tirada por mim em janeiro de 2014.


Passa um galho de pau movido a borboletas:
Com elas celebro meu órgão de ver.
Inclino a fala para uma oração.
Tem um cheiro de malva esta manhã.
Hão de nascer tomilhos em meus sinos.
(Existe um tom de mim no anteceder?)
Não tenho mecanismos para santo.
palavra que eu uso me inclui nela.
este horizonte usa um tom de paz.
Aqui a aranha não denigre o orvalho.



sábado, fevereiro 22, 2014

Foto de Gabriel Moreira
"9.

De noite passarinho é orfão
para voar. Não enxerga
nem o pai das vacas
nem o adágio dos arroios.
Seu olho de ovo emaranha com folhas.
No escuro não sabe medir direção e trompa nos paus.
Passarinho é poeta de arrebol."


Manoel de Barros
[em O Guardador de Águas]

sexta-feira, janeiro 24, 2014


Eu em Fagundes, PB
Não tem altura o silêncio das pedras.

(Uma Didática da Invenção - 
1ª parte, trecho X)

sexta-feira, setembro 13, 2013

Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982)